Você pode substituir por... | Jornal Plural
Clube Kotter
22 out 2020 - 10h38

Você pode substituir por…

Quem está doente normalmente tem muita dificuldade em expressar o que sente

Em diversos posts escrevi sobre o estigma e o preconceito que os transtornos mentais carregam. E essa é uma realidade dura, cansativa e, sem dúvidas, um fator que gera ainda mais estresse para quem está, muitas vezes, a duras penas, tentando manter a própria vida. E é fato que o desconhecimento leva à falta de empatia e cria diversos outros obstáculos, especialmente na comunicação.

Quem está doente normalmente tem muita dificuldade em expressar o que sente. Seja porque está muito confuso, seja por vergonha ou medo de ser julgado. Do outro lado, quem convive com essa pessoa e deseja ajudar, também não recebeu um treinamento para saber como lidar com essa situação tão crítica.

Sem nenhuma pretensão de abordar todos os temas desse universo tão vasto, eu me permito uma simplificação. Com exemplos de frases que eu mesma ouvi e de outras que foram relatadas por pessoas com transtornos mentais com as quais convivi. São exemplos de possíveis modificações naquilo que se diz, buscando que haja menos ruído e mais efetividade na comunicação, ajudando as duas partes.

Você pode substituir…

  • “Isso é falta de Deus!” Por “Hoje eu vou à missa/culto/sessão pois me sinto muito bem lá. Você gostaria de ir comigo para ver como se sente?”
  • “Você deve estar carregado.” Por “Além do tratamento médico, podemos buscar juntos ajuda espiritual. O que você acha?”
  • “Isso é frescura.” Por “Apesar de não sentir o que você sente, eu entendo que você está doente e que suas sensações são reais.”
  • “Você precisa se mexer e sair desta cama.” Por “O dia está lindo. Vamos fazer uma caminhada juntos?”
  • “Se cuide!” Por “Estamos juntos nessa. A tua saúde é muito importante para mim.”
  • “Se precisar, me avise.” Por “Amanhã eu vou te ligar para saber como você está.”
  • “Estou te mandando boas energias.” Por “Posso passar na sua casa para ficar um tempinho com você?”
  • “Você está fazendo sua família toda sofrer!” Por “As pessoas que te amam estão preocupadas com você e ficarão felizes ao ver o seu progresso.”
  • “Você está gastando/comendo/bebendo muito!” Por “Tenho percebido que seu comportamento com relação ao dinheiro/comida/bebida está diferente. Você quer falar sobre isso?”
  • “Parece que você não quer se ajudar.” Por “Você acha que seu tratamento está sendo efetivo? Acha que é necessário falar com seu médico/psicólogo sobre isso?”
  • “Você se machucou para chamar atenção.” Por “Eu sei que a sua dor é intensa, mas é preciso ter calma e confiar no tratamento.”
  • “Você deixou de ser produtiva!” Por “Eu entendo que neste momento você precise assumir menos responsabilidades.”
  • “Eu não aguento mais você.” Por “Eu não estou sabendo como lidar com a sua doença e isso não significa que eu não te ame. Devemos buscar ajuda juntos.”
  • “Isso é falta de louça para lavar.” Por “É importante que junto com o seu tratamento médico você continue mantendo uma rotina de atividades e isso pode incluir manter sua casa organizada.”
  • “Você É louca!” Por “Você ESTÁ doente e isso pode ser tratado.”

Algumas substituições parecem simplistas. Outras requerem uma mudança grande na forma como se encara o transtorno mental. São mudanças muito significativas. E, se existem milhares de maneiras de se dizer a mesma coisa, por que não optar pela mais gentil, clara e objetiva?

Se eu tivesse tido acesso a uma lista como essa nos meus piores momentos, certamente teria compartilhado com quem convivia comigo. Por isso, se você está próximo de alguém que está passando por um momento delicado, considere usar esta lista como guia. Para quebrar o gelo e perguntar se é assim mesmo que a pessoa sente. Talvez, esse possa ser o gancho para uma conversa franca sobre como vocês se comunicam.  

E, se você está vivendo no epicentro do transtorno mental e sequer sabe como falar do assunto, considere dividir este post com quem você convive. 

Todos estamos aprendendo, o tempo todo! Ninguém chega a esse mundo com manual de instruções. E uma comunicação clara pode ajudar a salvar vidas.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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