Quantos Austregésilos? | Jornal Plural
18 dez 2020 - 10h46

Quantos Austregésilos?

“Um basta definitivo no confinamento, sedação e experiências com cobaias humanas. Confinar não é tratar, é torturar.”

Austregésilo Carrano Bueno, curitibano, foi um escritor, dramaturgo e integrante do Movimento da Luta Antimanicomial. É dele a obra Canto dos Malditos, que narra sua experiência nos hospitais psiquiátricos e denuncia os abusos sofridos nessas instituições.

Em meados dos anos 70, ele então com 17 anos, foi internado em um hospital psiquiátrico após seu pai encontrar alguns cigarros de maconha no bolso de seu casaco. Em um período de três anos, ele foi transferido de um hospital a outro – “em chiqueiros psiquiátricos”, como dizia – sem ter sido sequer examinado e foi submetido a torturas e eletrochoques. Isso durou até que, desesperado, ateou fogo em sua própria cela, sendo retirado a tempo. O ato despertou seu pai, que o tirou do manicômio. Desajustado pelos eletrochoques, pela sedação pesada e pelas torturas variadas, ele acabou sofrendo também nas mãos da polícia, que lhe proporcionou doses extras de humilhação e espancamento.

Em 2000, o pesadelo vivido por Austregésilo foi transformado no internacionalmente premiado Bicho de Sete Cabeças, filme protagonizado por Rodrigo Santoro. 

Ele foi também o representante nacional dos usuários na Reforma Psiquiátrica do Brasil e a primeira pessoa no país a tentar mover uma ação indenizatória por erros de diagnóstico, tratamentos torturantes e crimes contra médicos psiquiatras, infelizmente, sem sucesso.

Ainda hoje, há centenas, milhares de Austregésilos. Não se sabe quantos. Muitos viveram, ou ainda vivem, internados, morando por 10, 20, 30 anos em manicômios. Sem família, sem visita, em condições precárias, subumanas. Obviamente, trancados, sem poder sair e sem ter para onde ir. Pessoas que perderam suas identidades.

Por isso, a reforma psiquiátrica – que se iniciou no Brasil no final da década de 1970, no contexto político de luta pela democratização – foi um importantíssimo marco na modificação do sistema de tratamento clínico da doença mental, buscando eliminar a internação como forma de exclusão social. “Por uma sociedade sem manicômios”, lema da campanha, mobiliza profissionais de saúde, usuários, familiares, professores, movimentos sociais e trabalhadores. O Movimento se tornou uma data para manter acessa a necessidade de se combater esse legado de horror e tragédia: o dia 18 de maio é o Dia Nacional de Luta Antimanicomial. O objetivo é que todo cidadão com transtornos mentais, tenha o direito fundamental à liberdade, o direito a viver em sociedade, além do direito a receber cuidado e tratamento.

Essa é, no meu entendimento, uma pauta que envolve questões morais e éticas. De princípios básicos da dignidade humana. E, por isso, fiz questão de usar esse espaço para contar sobre ela antes de relatar a minha história com o internamento psiquiátrico. Nas palavras de Austregésilo: “Um basta definitivo no confinamento, sedação e experiências com cobaias humanas. Confinar não é tratar, é torturar.”

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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