Qual ​é o​ teu clube | Jornal Plural
11 nov 2020 - 10h27

Qual ​é o​ teu clube

Muitas pessoas precisam esconder suas dores emocionais atrás de sorrisos

Muitas pessoas precisam esconder suas dores emocionais atrás de sorrisos​. Sorrisos amarelos​, ​que encobrem aquilo que realmente sentem. Infelizmente, é mais fácil sustentar um sorriso triste – uma mentira aparentemente confortável – do que sofrer as consequências de trazer à tona as suas verdades inconvenientes.

E onde eu vi isso acontecer com mais frequência foi em ambientes de trabalho. Mães e pais à beira de um ataque de nervos que, por terem uma família para sustentar, não podiam de forma alguma revelar os seus tristes segredos. Seriam, obviamente, taxados de incompetentes. Sabiam que uma licença médica, por mais necessária que fosse, deixaria uma mancha em sua trajetória profissional e isso colocaria décadas de trabalho árduo no lixo.

Em uma ocasião, uma colega próxima e extremamente competente, que estava esgotada e precisando tratar da sua saúde emocional com urgência, me confessou que tinha acabado de quitar seu carro e iria trocar por um modelo novo e bem mais caro. Fiquei espantada, pois sabia o quanto ela estava estressada, angustiada e precisando de um tempo. Não de um carro novo. Definitivamente​,​ não era a hora de assumir um novo compromisso financeiro desse porte. E ela me confessou que a troca do carro era proposital. Ela queria ter muitos boletos para pagar e, a forma que encontrou, foi comprando um bem material do qual nem ela nem a família precisavam. Mas cuja dívida a obrigaria a vestir seu sorriso amarelo todos os dias, a não pensar sobre as suas angústias nem sobre a sua frustração. Foi a maneira que ela 

encontrou de suportar o insuportável. De ir levando. De não olhar para suas verdadeiras questões e, claro, de não sofrer as sanções que um período sabático ou uma licença acarretariam. 

Me parece bastante óbvio que essa é uma situação que não se sustenta a longo prazo.

Seja no trabalho, seja com a família ou com os amigos, em algum momento a dor vai exigir uma via de escape verdadeira. E, infelizmente, em muitos casos​,​ essa via pode não ter volta. Não é à toa que ouvimos relatos de pessoas que “nunca” demonstraram estar em sofrimento e, que “aparentemente sem razão”, decidiram cessar suas dores. Quando tomo conhecimento de histórias assim, me pergunto há quanto tempo essas pessoas estavam tentando se convencer e convencer aqueles à sua volta de que tudo estava bem? Teriam sido semanas, meses, anos, décadas? Jamais saberei.

Voltando à decisão da minha colega, eu imagino que a análise dessa situação e da incoerência de nossas vidas no mundo do consumo poderiam preencher algumas teses acadêmicas. Mas me contento aqui com a famosíssima frase do personagem Tyler Durden, no filme Clube da Luta:

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, sem propósito ou lugar. […] Nossa Grande Depressão, são nossas vidas. Fomos criados pela televisão para acreditarmos que um dia seríamos milionários, estrelas de cinema ou astros do rock. Mas não seremos.”

Quem assistiu ao filme​, leu o livro ou ambos,​ sabe bem que não se pode falar sobre o clube, mas aqui, no nosso grupo de apoio (usando outra metáfora da obra), podemos quebrar todas as regras. O filme que​,​ para mim é um imenso convite à reflexão, mostra a vida tediosa de um analista de seguros. Seu emprego, que por um lado não lhe traz nenhuma satisfação pessoal, lhe proporciona uma vida confortável. E o personagem existe apenas para consumir. Está deprimido, com problemas para dormir e cheio da vida medíocre que leva. O rumo dos acontecimentos ​muda​ quando um outro personagem aparece para fazê-lo sair da inércia. ​Juntos,​ eles dão vazão à tudo aquilo que estava represado no personagem principal ​- que propositalmente nem nome tem – e​ formam o tal clube onde, obviamente, se luta. E talvez essa seja a representação máxima dos nossos instintos. Do corpo físico no qual tudo que há em nós se manifesta. Um resgate dos nossos sentidos mais profundos e da nossa ancestralidade bicho. 

Mas nem tanto lá​, ​nem tanto cá, eu te pergunto: qual é o teu clube? É do ​a​ dança, da música, da pintura, do skate, do bordado, da poesia, da capoeira, da bolinha de sabão? Pouco importa. A questão é dar vazão. Colocar para fora o que você carrega aí dentro. E parar de achar que qualquer bem material desnecessário vai servir como remédio.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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