O peso da depressão | Jornal Plural
Clube Kotter
29 set 2020 - 17h39

O peso da depressão

Encaro o ganho de peso como um efeito colateral em troca de algo muito mais importante

Durante o terceiro grande encontro com a “inconveniente”, que durou um período considerável até que as coisas se estabilizassem, tive sintomas físicos muito importantes. O primeiro deles foi a ausência completa de sono. Os dias e as noites viraram uma coisa só, sem nenhum intervalo. A angústia era tanta que comer também estava fora de cogitação. O cheiro de qualquer comida me dava náuseas. E, conforme os dias e noites de ausência total de sono e comida avançavam, os espasmos musculares e a confusão dos pensamentos e da fala aumentavam. A dor no peito não era apenas uma sensação, era uma dor real, palpável e muito forte, que fazia meu tórax latejar o tempo todo. E neste intervalo eu perdi muito peso.

Bem, eu nunca fui gorda. Nunca estive acima do peso considerado saudável para a minha altura. Mas, a única combinação de medicamentos que funcionou para mim, das diversas que tentamos, me fez ganhar mais de 20 quilos em pouquíssimos meses. Conforme o tratamento avançava e eu ia me sentindo melhor, recuperando a minha lucidez, mais peso eu ia ganhando. E eram sentimentos muito opostos. Eu estava voltando a ser eu mesma, depois daquele período tão desesperador. Minha saúde mental se restaurava e eu voltava a ter perspectivas e a fazer planos. Mas ao me olhar no espelho eu não reconhecia aquela pessoa. Aquele corpo e aquele rosto não eram meus. As mãos e os pés inchados como nunca tinha visto. Nenhuma roupa servia. Nem mesmo os pijamas.

E, se dentro de mim eu ainda estava tentando entender e organizar tudo aquilo, a cobrança externa não tardou. Ah, essa é sempre infalível. As pessoas não se importaram em perguntar o porquê de eu ter ganhado tanto peso. E, de alguma forma, se esqueceram de me perguntar se eu estava me sentindo bem. Ouvi inúmeras indiretas sobre fulanas, sicranas e beltranas que estavam lindas e magérrimas. Como se isso fosse muito mais importante que o fato de eu estar viva. 

E, sobre este assunto, eu nunca consegui revidar qualquer comentário não solicitado. Minha única resposta era repetir tudo que meu médico tinha me explicado sobre o ganho de peso associado ao tipo de medicação que eu estava usando. E, quando falar isso já não adiantava, eu dava um sorrisinho amarelo.

Esse ainda é um assunto muitíssimo delicado para mim. Obviamente, não mudaria em nada a minha jornada e encaro o ganho de peso como um efeito colateral em troca de algo muito mais importante e precioso: minha vida e minha sanidade. Mas, escrever sobre isso hoje, dia 08 de setembro de 2020, ainda não é fácil. Justamente por isso, julgo importante. 

Mesmo tendo passado alguns anos, eu não eliminei definitivamente todos os quilos que ganhei. Pelo contrário, estou há algum tempo em efeito sanfona. Ainda que já tenha mudado aquela medicação há tempos, é como se meu corpo tivesse se acomodado assim. E, apesar de me gostar muito e de me considerar uma mulher bonita, eu não gosto do fato de não poder usar as minhas roupas antigas. Eu não gosto de ser fotografada por outras pessoas pois quando me vejo nas fotos, eu não sei quem é aquela pessoa. Eu odeio mostrar os meus braços. Quando encontro alguém que não vejo há muito tempo, secretamente torço para que a pessoa não faça perguntas sobre o meu peso. Enfim, a sensação é que eu não estou no meu corpo. Que esse casulo que habito hoje não é o meu.

Mas aí é que são elas. Se me incomoda tanto, porque eu ainda não eliminei esse peso? Essa é a pergunta do milhão. Inclusive creio que eu precise voltar à terapia para tratar especificamente deste ponto. Eu me questiono frequentemente: “Do que será que eu estou me protegendo com este corpo mais volumoso? Será que de alguma forma eu associo estar mais magra com estar frágil ou vulnerável, já que nas três visitas da “inconveniente” eu estava no meu peso saudável? Quais os ganhos que este corpo maior me traz?”

Enfim, são algumas das perguntas que surgem aqui e que, sem dúvida, a terapia vai me ajudar a ir mais fundo. A ter um “click”. 

Afinal, as questões da vida são assim mesmo. Quando a gente resolve o problema A, o problema B é promovido! E a gente vai se descobrindo, se conhecendo e se desvendando. Ficando mais leve, mesmo com (muitos) quilos a mais.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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