Incivilidade corporativa | Jornal Plural
Clube Kotter
25 set 2020 - 15h35

Incivilidade corporativa

Vivi três anos de assédio que pioraram minhas crises de pânico

Durante dez anos, eu tive uma carreira muito bem sucedida em uma multinacional da área financeira. Entrei nessa empresa aos 20 anos e pedi demissão aos 30.

A última posição que ocupei, durante os últimos três anos, era excelente. Em uma área ligada à comunicação (que é minha formação), eu gerenciava uma equipe muito competente e meus pares eram profissionais do mais alto gabarito. Tinha uma boa remuneração e um bom pacote de benefícios. Eu gostava muito do que fazia.

Porém, as duas pessoas a quem eu reportava – minha chefe e o chefe dela – tinham comportamentos contrários a qualquer ideia de civilidade corporativa. O homem me assediou já no primeiro contato que tivemos. Na primeira reunião a sós. E era um comportamento que oscilava entre o assédio moral e sexual. Gritos e xingamentos enquanto todos olhavam (e para que todos olhassem) e baixinho ele dizia coisas extremamente inapropriadas.

A mulher parecia imitar o mesmo padrão. E, se não me assediava sexualmente, ela desacreditava e colocava em cheque tudo que eu relatava sobre minha saúde mental. Me disse em uma ocasião que corajoso mesmo era o fulano, que mesmo tendo crises de pânico, estava indo passar férias nos Estados Unidos, sozinho e sem falar inglês, para se desafiar. Que eu não parecia ser alguém com depressão pois em várias ocasiões ela me via sorrindo.

Mas a pior para mim foi ter tido todos os meus pedidos de apoio com relação ao assediador ignorados. “É o jeito dele”; “É só brincadeira, ele é casado e jamais faria isso”; “Bem, você é uma mulher bonita e já deveria ter aprendido a lidar com este tipo de situação”. Essas afirmações dela me tiravam o chão. Eram a constatação de que ali, naquele ambiente, eu estava sozinha.

E foram três longos anos assim. Três anos que fizeram com que as crises de pânico – que já existiam – se intensificassem a ponto de eu precisar de um afastamento médico. Três anos que detonaram a minha autoestima profissional – a qual não tenho certeza se já recuperei totalmente. E que fizeram com que eu desistisse de uma empresa que eu gostava, de um trabalho que amava e de um futuro ainda mais promissor. Infelizmente, eu sou a prova de que um ambiente de trabalho ruim pode agravar muito um quadro de transtorno mental. Que é impossível passar oito, nove, dez ou mais horas por dia ao lado de pessoas que te desacreditam e te desrespeitam sistematicamente sem sofrer consequências graves.

Essa mudança de comportamento de quem deseja liderar precisa acontecer para ontem. Afinal, ser um bom líder é, sobretudo, entender muito de comportamento humano. E saber que ética e respeito são imperativos. Que sem eles não existe saúde mental que aguente.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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