Esse tal de presente | Jornal Plural
2 out 2020 - 15h15

Esse tal de presente

Nos momentos ruins eu mal sentia o ar entrar nos pulmões

No meu último encontro com a “inconveniente” eu tive contato real com a noção de estar no momento presente. Eu já havia lido alguns textos na internet e ouvido durante as aulas de yoga mas nunca tinha realmente SENTIDO. E a prática foi apresentada pelo meu médico, numa consulta em que eu estava extremamente angustiada. Ele me explicou em detalhes a importância da respiração abdominal e todos os detalhes de como a inspiração e a expiração conscientes ajudam a regular uma série de reações fisiológicas e que, como o fato de aprofundar a respiração e me concentrar nela, faria a ansiedade diminuir.

Fizemos exercícios simulando situações nas quais eu pudesse me sentir à beira de uma crise para entender como a respiração me ajudaria em cada uma delas.

Esse foi mais um despertar para mim. Eu passei a perceber que nos momentos ruins eu mal sentia o ar entrar nos pulmões. Era uma respiração que ficava só na garganta, curta e rápida. E foi incrível aprender que eu podia controlar boa parte das sensações ruins apenas 

me concentrando na forma como eu estava respirando.

Eu gostei tanto de me sentir no controle, depois de tanto tempo de descontrole, que ao longo dos anos fui aumentando a lista das coisas que me colocam no momento presente. Atividades que eu já fazia, mas não tinha me dado conta da importância para a minha saúde mental. E estar no momento presente, para quem sofre de ansiedade e angústia, é algo tão difícil quanto importante. Mas, foi ficando mais fácil conforme eu me percebia e a lista aumentava.

A primeira da lista é, sem dúvida alguma, a meditação. Quem medita sabe como é e quem não medita precisa experimentar. Não tenho sequer repertório para tentar explicar a grandeza disso. É preciso sentir por si só. Porém, além da meditação clássica – aquela sentadinha em silêncio – existem muitas outras coisas que me colocam num estado de contemplação parecido. Essa é a minha lista:

⁃ Meus cachorros – Eu sou mãe de três cães lindos. E estar com eles é, inevitavelmente, estar no momento presente. Cães não sabem o que aconteceu ontem nem se afligem com o que vai acontecer amanhã. Eles só vivem o agora. E eu me permito viver o agora junto com eles.

⁃ Cantar – Eu amo cantar e, se estou bem, coloco música já enquanto estou passando café. E quando escuto algo novo que eu gosto, me desafio a aprender a cantar aquela música em um dia. Então eu ouço 30 vezes, paro, volto, repito e estudo a letra. Quando acho que está bom, me gravo cantando. Não ficou bom? Volta tudo. Enfim, eu vivo intensamente esses momentos sem pensar em mais nada.

⁃ Cozinhar – Ana Maria Braga ainda apresentava o Note e Anote na Record e eu já esperava ansiosa o momento das receitas. Sempre gostei de me desafiar, a tentar replicar novos pratos. Funciona da mesma forma: estou ali de corpo e alma e não penso em mais nada.

 Essas pequenas coisas já me fizeram ter dias muito melhores. Em diversas ocasiões em que não estava me sentindo bem e passar o dia na cama parecia ser a melhor opção, essa lista me 

tirou do rumo da prostração. Meus cães, especialmente, com aqueles olhinhos pidonchos, são os mestres em me tirar do desânimo. E no final do dia eu me pego coberta de pelos, suja dos pés à cabeça e muito mais aliviada do que se eu tivesse passado o dia dormindo.

Então o lance aqui é lembrar de respirar de forma consciente, especialmente nos dias em que as coisas não vão bem. E entender quais são as outras atividades que te ancoram no presente e fazem a tua mente aquietar. Isso pode salvar sua vida.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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