Ah, coitadinha | Jornal Plural
12 out 2020 - 9h57

Ah, coitadinha

Rejeitar essa posição da vítima foi dar a mim mesma o controle da minha vida

Uma das únicas experiências ruins que tive com a terapia aconteceu quando fui conhecer uma terapeuta nova. Não consigo lembrar exatamente quando, mas sei que foi em um período de vale. Essa nova terapeuta seguia uma linha diferente da que eu já tinha feito e, na esperança de tentar algo novo, fui entender como funcionava.

Depois de me ouvir por algum tempo, ela pareceu muitíssimo comovida com tudo que eu havia relatado. Muito mais comovida do que qualquer outro profissional que já tinha me atendido. E, para minha imensa surpresa, ao final da conversa ela se levantou, me abraçou muito forte e me disse “Coi-ta-di-nha! Vamos tratar de resolver essas coisas que estão te machucando tanto.” Eu relembro a cena e ainda consigo sentir o perfume doce que ela usava. Ficou impregnado em mim junto com uma sensação horrível enquanto eu dirigia para longe dali o mais rápido possível.

Bem, me considero uma pessoa muito afetuosa, mas aquele foi o pior abraço que já recebi. O mais inesperado, inconveniente e invasivo. 

O abraço, somado à fala que veio com ele, me colocou num lugar que eu não queria estar. Ou melhor, um lugar ao qual eu não pertencia: o de vítima. Sem discorrer sobre a profissional ou a linha de trabalho (pois sequer lembro o nome dela) volto o foco para mim.

Definitivamente não sou coitadinha. Quem me conhece provavelmente não usaria esta palavra para me descrever. Não faço o tipo. Sou barulhenta, falo alto, rio, reclamo, tenho opiniões fortes, sou bastante crítica, eloquente e ativa.

E, se até aquela ocasião eu não tinha me dado conta, ao sair do consultório dela, a grande ficha caiu. A depressão e as tentativas que fiz de cessar a dor a qualquer custo não me transformaram em uma vítima passiva, inerte e prostrada. Também não atribuo a totalidade da minha doença aos acontecimentos da vida, mesmo tendo passado por coisas muito difíceis. Se por um lado foram momentos pesados e não colaboraram para que eu melhorasse, por outro não foram uma sentença. Afinal, milhões de pessoas no mundo passam por situações semelhantes, ou muito piores, e nem todas desenvolvem quadros depressivos. Nem todas idealizam o suicídio. Nem todas tentam.

Talvez naquele momento, após o tal abraço, eu tenha me dado conta de não sofro mais ou menos do que qualquer ser vivo por conta da depressão. Eu sofro de uma maneira diferente. Isso também não me faz melhor ou pior, mais ou menos merecedora, apenas e tão somente diferente.

Como escreveu Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. E eu sou repleta de delícias! Valorizo cada uma delas e, com a maturidade, elas ganham ainda mais força. E se as delícias são minhas, a responsabilidade por sentir minhas dores desta forma tão intensa, também. Pois, definitivamente sou a protagonista aqui e não um ser passivo e atônito. Uma coadjuvante que assiste muda e calada as condenações que a vida lhe impõe. Vale a máxima: “não somos apenas o que acontece conosco, mas também o que fazemos com o que nos acontece”.

Ter rejeitado de forma tão categórica essa posição da vítima ou da coitadinha foi dar a mim mesma o controle da minha vida. Mesmo que a minha vida estivesse uma bagunça. Assumir o protagonismo desta parte da minha história foi fundamental no meu processo de cura. E continua sendo.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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