A imprensa não vai parar de investigar o poder | Jornal Plural
29 set 2020 - 15h42

A imprensa não vai parar de investigar o poder

E isso causa ódio. Trump que o diga

Trump assim que tomou posse como presidente dos EUA disparou contra a imprensa: “os jornalistas são as piores pessoas que existem na Terra”. A frase de ódio anunciava uma guerra que ele alimentou todos os dias em seus quatro anos de poder ao acusar a imprensa de produzir notícias falsas. Neste domingo, 27, no final da tarde, a imprensa mostrou de novo porque Trump odeia o jornalismo.

O jornal The New York Times em um furo de reportagem obteve documentos dos últimos 20 anos de declarações de imposto de renda de Trump e mostrou o que todos suspeitavam: Trump não pagou impostos sobre a renda por 10 anos entre 2000 e 2017, alegando perdas financeiras. Nos outros anos pagou US$ 95 milhões, mas recuperou US$ 72,9 milhões com deduções financeiras que estão em investigação pelo Tesouro americano.

Se a revelação vai virar votos pró-Biden, na véspera das eleições americanas, em novembro, ainda não se sabe. Quem apoia Trump o aceita incondicionalmente mesmo sabendo que o presidente mente. As pessoas não estão sendo enganadas, como mostrou uma reportagem na CNN americana há pouco dias, em um comício de Trump.  Elas querem ser enganadas por Donald Trump porque ele representa o que elas pensam sobre imigrantes, racismo, homofobia, machismo, impostos e por aí vai.

Bolsonaro não é diferente de Trump, é uma cópia pior. Desde o início, partiu para cima da imprensa e se pudesse daria socos na cara dos jornalistas, como disse há algumas semanas quando a imprensa quis saber: Presidente, por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da sua esposa?

Em janeiro de 2018 – dez meses antes da eleição presidencial, a Folha de S.Paulo já mostrava em suas páginas a compra de imóveis pelos Bolsonaros com dinheiro vivo, um dos clássicos da lavagem de dinheiro. Ninguém deu bola, afinal Bolsonaro não era ainda um candidato competitivo embora já aparecesse nas pesquisas de opinião. A Rede Globo, na época, assim como toda a imprensa, estava com lupa em cima das decisões da Lava Jato sobre Lula. Lembro de um episódio em especial que aconteceu entre janeiro e fevereiro de 2016. A Rede Globo exibiu sem parar por vários dias e semanas reportagens nas quais a empreiteira Odebrecht teria pago a reforma do sítio frequentado por Lula, em Atibaia, interior de São Paulo. Quem estava na praia, como eu, e só tinha a Rede Globo para assistir ao noticiário – lá não havia tv a cabo e o sinal de celular era ruim, foi bombardeado pela notícia. O noticiário estava pegando fogo – um mês antes, em dezembro de 2015, havia sido aberto pela Câmara dos Deputados o impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff, processo que que terminaria por afastá-la do poder em 31 de agosto de 2016.

A avalanche de notícias naquele pré-carnaval de 2016 mostrou como a massificação da informação cria uma tempestade. Em todos os jornais da emissora o assunto era tratado com dezenas de minutos de matérias sobre o sítio de Atibaia. Claro que o nome mais importante da política brasileira, na época, justificaria o imenso interesse da imprensa. Lula dava Ibope, audiência. E isso importa. Só que o preço pago pela emissora foi alto: ela foi acusada de patrocinar o impeachment da ex-presidente Dilma. A Folha de S.Paulo também ganhou campanha pela oposição nas redes sociais contra sua cobertura.

A imprensa quer audiência e conquista credibilidade ao trabalhar com fatos comprovados, documentos, testemunhas. Mas o que publica não significa uma sentença final. O quase impeachment de Bill Clinton mostra isso. A imprensa americana cobriu intensamente o caso do ex-presidente  Clinton, na dosagem que merece um acontecimento que envolve um presidente da República dos EUA. O democrata foi pego na Casa Branca em atitudes sexuais condenáveis com a estagiária Mônica Lewinsky, 22 anos na época. Acabou afastado da presidência pela Câmara americana. O assunto ganhou todas as manchetes por meses, mas o Senado americano o absolveu e ele conseguiu terminar seu mandado com a popularidade em alta.

Um resultado muito diferente do caso Watergate, que levou Richard Nixon, em 1974, a renunciar à presidência dos Estados Unidos. A investigação do jornal Washington Post, pelos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, revelou o envolvimento da administração Nixon na invasão do quartel-general do Partido Democrata para instalação de escutas telefônicas. A espionagem feita com recursos do Estado e a anuência de Nixon para ser reeleito, acabou com sua vida política.

A imprensa não decide os rumos de uma nação, mas incomoda os poderosos que estão no poder. Incomoda qualquer governante, porque “a imprensa existe para os governados, não para os governantes”, como lembra o filme The Post. Tem quem ache esse papel da imprensa coisa do século passado. O New York Times provou mais uma vez com sua manchete deste domingo que o jornalismo está vivo, embora continue sendo duramente testado e desafiado nos últimos anos com a mudança para a plataforma digital e com a perda de recursos que quase o colocou de joelhos. Mas a mudança de plataforma foi só uma mudança de plataforma: o jornalismo que importa e tem credibilidade continua intacto mesmo que mais pobre.

No Brasil, a imprensa passa por momentos de ameaça semelhante aos regimes ditatoriais, com tentativas de cercear a liberdade de expressão. Houve um tempo em que até foi sugerida a regulamentação da mídia. Agora, o presidente da República não mede palavras contra a imprensa. Jornalistas estão sendo perseguidos com processos judiciais numa tentativa de interditar o debate. Querem exercer o poder com controle da informação. Na democracia não funciona assim, mas eles continuam a intimidar até mesmo na maior democracia do mundo.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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