9 fev 2022 - 8h15

Na Igreja do Rosário, esquerda e direita rezaram juntas

O que enfraquece e fragiliza a esquerda, e fortalece o avanço da direita e do fascismo bolsonarista, não são manifestações como a de sábado, nem o “identitarismo”. Mas a esquerda que acredita que derrotaremos Bolsonaro e o bolsonarismo apenas no campo institucional e graças a capacidade de Lula de conciliar com o mercado e a Opus Dei

Em março de 2018, enquanto as redes sociais eram tomadas pela comoção após o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL, o então deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro mandou sua assessoria justificar seu mutismo afirmando que “sua opinião sobre o assassinato seria polêmica demais”.

Quase quatro anos depois, e agora presidente, Bolsonaro fez novo silêncio, dessa vez sobre o assassinato, igualmente brutal, do imigrante congolês Moïse Kabagambe. Que ambos os crimes tenham o dedo das milícias com as quais o clã Bolsonaro mantém longas e notórias ligações, ajuda a entender a discrição presidencial.

Discrição, no caso da execução de Moïse Kabagambe, quebrada ontem, quando o presidente anunciou que acionará os ministérios da Justiça e Segurança Pública e o da Mulher, Família e Direitos Humanos para acompanharem os desdobramentos da manifestação que, no sábado (5), adentrou a Igreja do Rosário, no centro de Curitiba.

Em sua conta no Twitter, o genocida associou a presença do vereador Renato Freitas, do PT, e dos demais manifestantes na igreja, que chamou de “marginais”, a uma “tentativa da esquerda de retomar o poder no Brasil”. Bolsonaro não está sozinho.

Diácono abençoa novas armas da Guarda Municipal. Foto: Ricardo Marajó/SMCS.

Em nota assinada pelo arcebispo Dom José Peruzzo, a arquidiocese de Curitiba mentiu ao afirmar que os manifestantes do Coletivo Núcleo Periférico entraram na igreja durante a missa e que “lideranças do grupo instaram a comportamentos invasivos, desrespeitosos e grotescos”. O prefeito Rafael Greca sugeriu, em uma rede social, o uso do artigo 208 do Código Penal, que prevê pena para quem “perturbar culto religioso”, e vereadores da bancada governista estão a usar o episódio para tentar, mais uma vez, a cassação do mandato do vereador petista.

Surpresa zero, óbvio: não esperava nada diferente de um prefeito que chamou um religioso para abençoar o armamento de guerra que comprou para a Guarda Municipal, com a aprovação de seus vereadores e a conivência silenciosa das autoridades católicas locais. Tampouco surpreende que Bolsonaro e a direita usem politicamente o episódio para atacar a esquerda, inclusive eleitoralmente.

Não é preciso muito esforço de memória para lembrar todas as vezes que a direita usou movimentos e manifestações sociais e populares contra a esquerda – quem mora em Curitiba certamente lembra, para ficarmos em poucos e recentes exemplos, da violência contra as ocupações estudantis de 2016, e os impropérios lançados contra a Marcha das Vadias, acusadas de danificar o patrimônio público com suas performances na estátua da Mulher Nua.

Mas se Bolsonaro, Greca, o arcebispo e toda a direita façam exatamente o que se espera deles, causou alguma perplexidade a reação de parte do campo progressista institucional, que decidiu atacar e desqualificar Renato Freitas e os manifestantes nos mesmos termos raivosos da direita.

Sob a justificativa de que não se pode mexer com a igreja católica e a tradicional família brasileira, especialmente em um ano eleitoral, o que se leu desde o domingo foi um desfile de desinformação e mentiras. Houve quem sugeriu a equivalência entre a manifestação e os ataques, corriqueiros, a terreiros de candomblé e umbanda. Muitos falaram em “invasão” e em atentado à liberdade religiosa. E quase todos censuraram a manifestação por dar “munição à direita” e comprometer o combate ao fascismo bolsonarista.

Renato Freitas. Foto: Carlos Costa/CMC.

Chega a ser irritante explicar isso, mas vamos lá: sob nenhum ponto de vista se pode comparar os acontecimentos de sábado com o que líderes religiosos e praticantes de religiões de matriz africana enfrentam Brasil afora. Diferente da violência dos ataques a terreiros, a igreja não foi depredada, nenhuma imagem considerada sagrada foi destruída, ninguém foi agredido.

Tampouco houve invasão ou atentado à liberdade religiosa. O ideal seria o padre responsável pela liturgia dominical, que certamente não desconhecia as razões da manifestação e a história da Igreja do Rosário, convidar os militantes a entrar no templo e sugerir, a católicos e manifestantes, rezarem juntos pelo fim da violência contra a população negra.

A atitude seria não apenas bonita, mas coerente com a trajetória do Nazareno em cuja existência os cristãos acreditam e que, de acordo com as narrativas do Novo Testamento, fez sempre opção pelos desvalidos, os miseráveis, os renegados e os excluídos, incluindo ladrões e prostitutas.

Como o padre e seus fieis, talvez antecipando a reação de seu arcebispo, preferiram fechar as portas do templo, é importante que se diga, mais uma vez: quando os manifestantes entraram, a missa já estava encerrada e a igreja, vazia. Há vídeos mostrando isso, e qualquer coisa que se diga de diferente não é falta de informação. É má fé mesmo.

Foto: Reprodução Redes Sociais | mandato vereador Renato Freitas

As ruas, uma pedra no sapato

Mas há um último aspecto ainda, tão ou mais grave, sobre esse repentino alinhamento progressista com a direita. Ele revela um impasse da esquerda institucional que ultrapassa os acontecimentos do final de semana. Um dos argumentos brandidos contra Renato Freitas é de que sua atitude foi “imatura”, “voluntarista” e “lacradora”.

Também sem nenhuma surpresa, aproveitou-se a controvérsia para desqualificar mais uma vez o “identitarismo”, esse espantalho conceitual que não tem outro propósito além de desqualificar os novos movimentos sociais, reduzindo toda a pauta negra, feminista e LGBT à “lacração”, porque, parece, denunciar os índices de violência, física e simbólica, e a imensa desigualdade social e econômica que afeta esse grupos, não passa de invenção, de vontade de “lacrar”.

Em artigo publicado em junho do ano passado, aqui no Plural, manifestei minha preocupação com o silêncio de Lula sobre as primeiras grandes manifestações contra o governo, em um momento em que a pandemia chegava ao seu momento mais dramático e os mortos se contavam aos milhares por dia, graças à política negacionista e genocida de Bolsonaro.

Nele, reclamava que o silêncio do ex-presidente era problemático porque expressava, no curto prazo, um pragmatismo arriscado ao apostar na continuidade e no desgaste do governo com vistas às eleições desse ano. Mas, para além da aposta e do risco eleitoral, Lula, agora livre e presidenciável, atualizava as políticas de conciliação que foram a tônica dos governos petistas, de que o esvaziamento dos movimentos sociais é parte indissociável.

Lula. Foto: Ricardo Stuckert.

Uma postura que impregnou a esquerda institucional e, em especial, o PT – e que ameaça levar junto, inclusive, uma parte do PSOL. Para esse segmento da esquerda, o radicalismo que durante anos foi a tônica dos nossos discursos e práticas é visto, hoje, como um perigo, e insistentemente desqualificado.

Mas o que enfraquece e fragiliza a esquerda, e fortalece o avanço da direita e do fascismo bolsonarista, não são manifestações como a de sábado, nem o “identitarismo”, e sim a esquerda que acredita, e quer nos fazer acreditar, que derrotaremos Bolsonaro e o bolsonarismo apenas no campo institucional e graças a capacidade de Lula de conciliar com o mercado e, agora, com a Opus Dei. O PT já tentou isso, e sabemos onde nos trouxe.

Em seu perfil no Facebook, a professora Andrea do Rocio Caldas escreveu um post preciso e sucinto, que subscrevo: “Outro dia, escrevi que a elite até aceita Lula sem a base social organizada. É isto o que temem. Não o Lula, nem mesmo o Bolsa-Família. São manifestações como a que ocorreu na Igreja do Rosário. É gente na rua, é gente organizada. É o poder que vem debaixo. Pois então, há certa ex-querda que entendeu que é para seguir o figurino proposto pela elite. Seria isto o efeito colateral do Alckmin como vice ou o Alckmin como vice é o efeito colateral desta política que já impera, há tempos, no campo oficialista?”.

Geraldo Alckmin. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

A esquerda não teria chegado aonde chegou, não fosse sua capacidade de atuar em frentes que não são contraditórias nem, tampouco, excludentes. O próprio PT deve muito de sua força e importância à articulação que promoveu, durante anos, das demandas e exigências do campo institucional com os movimentos sociais e as forças populares, de que são parte, entre outros, as Comunidades Eclesiais de Base da igreja católica. Outrora fundamentais à construção e consolidação do partido e sua inserção social e eleitoral, elas foram praticamente abandonas e esquecidas pelos seus dirigentes após sua ascensão ao governo.

Se é verdade que não se derrota o bolsonarismo apenas nas ruas, também o é que não o derrotaremos sem elas. Mas, desconfio, o projeto da esquerda institucional e do PT, não vai além de vencer eleitoralmente Bolsonaro, deixando mais ou menos intocável o bolsonarismo, a Nêmesis dos sonhos para quem alimente ao medo como um de seus vetores políticos.

E para isso não é mesmo importante reconquistar o protagonismo das ruas, que um dia já foi nosso. Pelo contrário, ao lembrar partidos e governos que a democracia não se esgota no voto, nem a política no campo institucional, as ruas podem, mesmo, ser uma pedra no sapato.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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