Contados os votos, é preciso aprender com a derrota | Jornal Plural
3 dez 2020 - 14h03

Contados os votos, é preciso aprender com a derrota

Se o PSol sai da eleição fortalecido, há de se ter cuidado para não se repetir o que ocorreu com o PT, hoje dependente da liderança cada vez mais personalista de Lula

É preciso levar a sério a experiência da derrota, nos alertava T. J. Clark em um pequeno livro, Por Uma Esquerda Sem Futuro, publicado há quase uma dezena de anos. Nele, o historiador e crítico inglês chamava a atenção, entre outras, para duas coisas: a necessidade de as esquerdas realizarem um balanço dos equívocos passados, e renunciar às noções messiânicas de futuro, como possibilidade de intervenção crítica no presente.

Os contextos a que T. J. Clark se refere são, evidentemente outros; ele falava, principalmente, à esquerda europeia. Mas me sirvo dessa premissa – é preciso levar a sério a experiência da derrota – para falar de outra derrota, a das esquerdas brasileiras no último domingo – sim, leitor, se você não aguenta mais ler ou ouvir falar das eleições municipais, trago más notícias.

Capa do livro Por Uma Esquerda Sem Futuro, de T. J. Clark.

Não importa por onde se olhe, qualquer balanço do resultado das urnas aponta para o fato, inexorável: perdemos. Os partidos progressistas, sejam de esquerda (PSol) ou de centro-esquerda (PT, PDT e PSB) administrarão menos prefeituras que nos últimos quatro ou oito anos. O PT, ainda a maior força do campo progressista, não venceu em nenhuma capital.

Em Vitória, onde chegou ao segundo turno, perdeu para um dos poucos candidatos abertamente bolsonarista, o Delegado Pazolini, conhecido nacionalmente por invadir hospitais e intimidar profissionais de saúde durante a pandemia, e por intervir, junto com a ministra Damares, para impedir que uma menina de 10 anos, grávida e vítima de estupro, abortasse.

No cômputo geral, o ranking das prefeituras é liderado, com folga, por partidos de direita e centro-direita, com MDB, PP, PSD, PSDB, DEM e PL ocupando as primeiras posições. Os partidos de centro-esquerda mais bem posicionados – PDT, PSB e PT, nessa ordem – encolheram. Em compensação, Republicanos, Cidadania, PSC, Podemos, PSL, Avante e Patriota – todos eles alinhados, em algum grau, a Bolsonaro –, cresceram.

Nas Câmaras de Vereadores o quadro não é melhor.

Se levarmos em conta apenas as capitais, os partidos situados à direita foram os que mais cresceram em relação às eleições de 2016, passando de 223 para 305 vereadores. A esquerda acrescentou seis aos 160 eleitos no último pleito; e o chamado “centro” encolheu, elegendo 103 contra os 148 vereadores de 2016. Como no Brasil, em não poucas ocasiões, centro e direita se confundem, não é difícil saber quem larga em vantagem.

Confrontar Bolsonaro e o bolsonarismo

Partidos alinhados ao governo Jair Bolsonaro cresceram na eleição deste ano.

Parafraseando aquele velho camarada: “que fazer?”. Lamber as feridas não é opção, certamente. Mas, tampouco, me parece uma alternativa interessante e saudável nos agarrarmos com demasiado entusiasmo às pequenas vitórias, alguma delas, principalmente simbólicas. A esquerda tem uma tarefa enorme e difícil pela frente, entre outras, fortalecer a oposição ao governo Bolsonaro e fazer frente ao bolsonarismo,

Apenas no primeiro caso uma hipotética e, a meu ver, pouco provável, frente ampla de esquerda para as eleições de 2022, pode surtir algum efeito prático, por exemplo, aumentando a presença de parlamentares progressistas nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Mas mesmo isso depende, em larga medida, da capacidade das esquerdas – e não apenas dos partidos de esquerda – de construir uma oposição capaz de confrontar o bolsonarismo.

E é nessa oposição, nesse combate ao fenômeno político do bolsonarismo, e não apenas ao governo Bolsonaro, que podemos aprender com a derrota dessas eleições.

Destaco, primeiramente, a rearticulação do campo progressista, depois de uma ressaca de quase dois anos, na esfera municipal. Explico. Há muito tempo me incomoda que as eleições municipais sejam tratadas como secundárias em relação às presidenciais. Deveríamos prestar mais atenção nelas, e por diferentes razões, a começar pelo fato de que, não raro, as decisões tomadas no âmbito local repercutem mais rápida e diretamente sobre nosso cotidiano.

Além disso, se quisermos fortalecer uma cultura democrática, mais horizontal e participativa, alargando as possibilidades da democracia institucional e representativa, é pelos municípios, não pelo Estado, que iniciaremos esse processo. Uma das razões para a bem sucedida campanha do PSol em São Paulo, foi sua identificação com a cidade, facilitada pelo fato de Erundina já ter sido sua prefeita, e Boulos, principal liderança do MTST, conhecer como poucos as imensas e complexas dificuldades da capital paulista.

O que me leva à segunda questão.

Luiza Erundina foi prefeita de São Paulo entre 1989 e 1992.

Voltar e mobilizar as bases

Se o PSol sai da eleição fortalecido, há de se ter cuidado para não se repetir o que, de certa forma, ocorreu com o PT, hoje dependente da liderança cada vez mais personalista de Lula. A posição conquistada por Boulos, deve servir para fortalecer o PSol onde ele ainda é pouco expressivo – e penso, por exemplo, em Curitiba, onde o partido mais uma vez bateu na trave, mas não conseguiu eleger sua primeira vereadora ou vereador.

E quem conhece um pouco das esquerdas e do personalismo que é a marca da política brasileira, e não apenas a progressista, sabe que isso pode ser bastante difícil.

Mas de tudo, o mais importante: é preciso que esse retorno às bases, seja lançando candidaturas com história e origens nos movimentos sociais (novos e tradicionais, identitários e de classe), ou dialogando diretamente com os eleitores, não pode ser um expediente apenas eleitoral. É preciso desenhar estratégias que pensem a política para além das alianças partidárias com vistas às próximas eleições presidenciais, fortalecendo as bases sociais dos partidos progressistas.

Ex-presidente Lula. Crédito da foto: Instituto Lula/arquivo.

Essa mobilização é imprescindível para a oposição a Bolsonaro, certamente, mas também para enfrentar a assustadora e preocupante capilaridade do bolsonarismo. Sem ela, seguiremos perdendo.

Não apenas em 2022, com ou sem frente ampla, disputando com a extrema-direita ou com a direita reinventada como centro. Mas perderemos algo ainda mais fundamental, que é a capacidade de alargarmos nossos horizontes de expectativa, de imaginarmos e escolhermos outro futuro que não esse que nos está a ser imposto: negacionista, obscuro, teocrático, truculento e autoritário. Em suma, insuportavelmente violento.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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