As vidas de Jacarezinho não merecem o luto | Jornal Plural
13 maio 2021 - 0h04

As vidas de Jacarezinho não merecem o luto

É principalmente o Estado quem produz os critérios políticos de reconhecimento, razão pela qual, a cada novo assassinato, além de defender e proteger a polícia, seus agentes tratam de criminalizar a vítima, tornada responsável por sua tragédia

O sangue dos 28 mortos, um deles policial, ainda escorria pelas ruas, casas e quartos de Jacarezinho, quando o governo carioca colocou em marcha a estratégia de todos os governos após uma chacina. Na coletiva à imprensa, que o filósofo e professor Silvio Almeida chamou de “o grau zero da barbárie”, o delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada, afirmou que “não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante”.

O misto de escárnio e exibição de um poder sem escrúpulos nem limites, repercutiu em Brasília, com o vice-presidente e general do Exército, Hamilton Mourão, afirmando que os mortos eram “tudo bandido”, e Bolsonaro parabenizando a operação. Nas horas seguintes ao morticínio, ficamos sabendo que nem todos eram homicidas ou traficantes. E é mesmo possível que, nem mesmo, todos fossem “bandidos”.

A operação tampouco foi um equívoco ou falta de planejamento e inteligência policiais.

Pelo contrário, ela foi autorizada, desde há muitos anos, por uma guerra que se anuncia contra as drogas, mas que não é travada nas áreas nobres da cidade maravilhosa, nem naquelas que são dominadas pela milícia. E que, em Jacarezinho, coincidentemente (ou não), aconteceu no dia seguinte à visita de Jair Bolsonaro ao governador do estado, Cláudio Castro, no Palácio Laranjeiras.

Claro que a violência policial não é exclusividade do Rio de Janeiro. Pelo contrário, ela é prática recorrente, especialmente nas capitais e grandes cidades, onde não apenas o aparato militar é maior, mas também a demanda por sua presença mais ostensiva, uma coisa alimentando e justificando a outra. O resultado é que nos tornamos reféns de uma política de segurança baseada, fundamentalmente, no aparelho policial repressivo e na sua crescente necessidade de produzir, apresentar e eliminar sempre mais e mais inimigos.

Historicamente, este inimigo foi personificado na figura do pobre, na maioria esmagadora das vezes, também negro.

Este roteiro, em que se nomeia o inimigo a partir de certos atributos de classe e etnia – definido por um sociólogo carioca, Edmundo Campos Coelho, já nos anos de 1970, de marginalização da criminalidade e criminalização da marginalidade –, produziu a inércia frente à violência policial, principalmente entre as camadas médias urbanas, naturalizando-a, quando não a festejando, como se viu nas inúmeras manifestações após o massacre de Jacarezinho.

A questão mereceu de Judith Butler atenção especial. Ao pensar a produção do que chamou de “vidas precárias” pela guerra ao terror levada a cabo pelo governo de George W. Bush, a filósofa estadunidense coloca a questão, apenas aparentemente banal: o que é uma vida? Segundo Butler, para além da dimensão biológica, para ser reconhecida uma vida precisa se conformar a certas concepções, a um conjunto de normas social e politicamente produzidas.

A isso ela denominou “enquadramento”, responsável por distinguir aquelas vidas que podemos apreciar e valorizar, daquelas que não merecem ser consideradas, e cuja eliminação merece a indiferença. A “condição precária” a que se refere Butler é politicamente induzida e, particularmente no Brasil, por uma soma de políticas que distribuem desigualmente a vulnerabilidade e a violência, principalmente estatal.

E não se trata de “vidas nuas”, conceito amplamente conhecido a partir da obra de outro filósofo, o italiano Giorgio Agamben.

Diferente do homo sacer, essas vidas não estão fora, mas dentro dos limites muito bem demarcados da polis. Uma das faces mais perversas dessa condição, aliás, é que, forçosamente expostas, constrangidas e subjugadas pela violência do Estado, não é incomum às comunidades vulneráveis não restar outra opção além de se sujeitar ao próprio Estado contra o qual precisam de proteção.

Porque se o Estado não exerce, necessariamente, o monopólio do exercício da violência, ele detém as condições políticas e simbólicas privilegiadas para estabelecer os limites, no interior dos quais, as vidas que ele mesmo sacrificou serão ou não passíveis de luto.

É principalmente, embora não exclusivamente, o Estado quem produz os critérios políticos de reconhecimento, razão pela qual, a cada novo assassinato, além de defender e proteger a polícia, seus agentes tratam de criminalizar ou culpabilizar a vítima, tornada responsável por sua própria tragédia. E não é como se apologistas dessa e de outras operações policiais não soubessem disso. Pelo contrário.

Uma das práticas mais comuns nas redes sociais, imediatamente posterior à comoção pelo fim de uma vida não passível de luto, é a farta distribuição de falsificações que desautorizam o seu reconhecimento. Aconteceu de novo com Jacarezinho, como aconteceu antes com tantas outras vítimas das “balas perdidas” e da “guerra contra as drogas”.

Aconteceu antes com Amarildo, Marielle, João Pedro Mattos, Ágatha Félix, Eduardo de Jesus Ferreira, Evaldo dos Santos… Na quinta, 6 de maio, aconteceu com Jonathan Araújo da Silva, Jonas do Carmo Santos, Márcio da Silva Bezarra, Carlos Ivan Avelino da Costa Junior, Rômulo Oliveira Lúcio, Francisco Fábio Dias Araújo Chaves, Cleyton da Silva Freitas de Lima, Natan Oliveira de Almeida, Maurício Ferreira da Silva, Ray Barreiros de Araújo, Guilherme de Aquino Simões, Pedro Donato de Sant’Ana, Luiz Augusto de Oliveira Ferreira, Isaac Pinheiro de Oliveira, Richard Gabriel da Silva Ferreira, Omar Pereira de Silva, Marlon Santana de Araújo, Bruno Brasil, Pablo Araújo de Mello, John Jefferson Mendes Rufino da Silva, Wagner Luiz Magalhães Fagundes, Matheus Gomes dos Santos, Rodrigo Paula de Barros, Toni da Conceição, Diogo Barbosa Gomes, Caio da Silva Figueiredo e Evandro da Silva Santos.


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