21 out 2021 - 14h02

A Febre fricciona dois brasis distintos

Ficção de Maya Da-Rin, filmada em Manaus, põe em colisão o capitalismo e a floresta, o homem branco e o indígena

O primeiro longa-metragem ficcional de Maya Da-Rin, A Febre, se passa em Manaus, no contato entre a floresta e a cidade, entre o Brasil capitalista e o mundo encantado dos povos originários. É quase um ensaio sobre a fricção entre esses dois mundos, um tão pragmático e outro tão onírico.

Justino (Regis Myrupu) é um indígena que vive na cidade, mora com sua filha enfermeira e trabalha como vigia de um porto. Ele cuida dos contêineres que chegam de todo o mundo, “até da China”, repletos de mercadorias. Mas aquele trabalho lhe dá sono. Justino não tem qualquer apreço por sua função. Aquelas cargas pouco lhe dizem respeito e ele nem gosta de armas, embora as use para caçar. E o sono é tentador porque o sonhar é um lugar de reencontro, de reconexão com sua ancestralidade.

No enredo, há uma febre que acomete Justino e provavelmente outros indígenas. Exames são pedidos e antitérmicos são receitados. Nada alarmante, porém. Pode ser uma virose comum, nada demais. Mas a febre é persistente. E simbólica.

Aos poucos vamos sendo apresentado à rotina dos personagens. Justino conhece um outro vigia que chegou de outra cidade. Aliás, ali tudo parece estar chegando ou saindo, como sua filha, que foi aprovada no curso de Medicina e terá que se mudar para Brasília; como os navios que trazem e levam os contêineres; como seus parentes que vêm em visita e logo se vão. De um jeito torto, lembra Era Uma Vez em Tóquio (1953), clássico do japonês Yasujiro Ozu. Tanto lá como aqui, temos histórias sobre mundos em transformação. Na década de 1950, o fim da Segunda Guerra começava a ocidentalizar freneticamente o Japão. Em A Febre, o ocidente transforma a vida e o povo nativo. E é essa a febre do título, um mal estar por ser/estar deslocado de seu habitat.

Maya Da-Rin não tem qualquer pressa em sua narrativa e faz muito sentido que assim seja, já que estamos tão colados a um protagonista que tem, também, um tempo todo seu. Há, porém, um fiapo de suspense. Parece que um animal está rondando o bairro onde vivem e tem feito vítimas. É mais um elo que une e afasta a floresta e a cidade, porque o homem branco tem medo de tudo o que vem da floresta. Há, inclusive, um diálogo revelador: o novo vigia diz para Justino que, no serviço antigo, dormia em prontidão, “com medo dos índios”. Como que percebendo a gafe, tenta consertar, dizendo que lá na sua antiga cidade, os “índios eram bravos, não eram amansados”.

Esse ensaio ficção nos põe em contato com o abismo que divide culturalmente o Brasil, um país repleto de povos e culturas que são sistematicamente apagados e marginalizados. A Febre ajuda a nós, pessoas não indígenas, a enxergar o mundo com um pouco de mais empatia e encanto. É poderoso o que é alcançado aqui, porque de tanto friccionar, em algum momento abre-se uma brecha e vemos o outro lado. O lado da floresta.

Disponível para assinantes na Netflix.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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