Paulo Guedes e as domésticas: um hino à desigualdade | Jornal Plural
13 fev 2020 - 11h04

Paulo Guedes e as domésticas: um hino à desigualdade

Bolsonaro está a mando de quem sempre dominou o país desde tempos imemoriais

Não é preciso ser lulista para lembrar que um pouco mais de 10 anos atrás os aeroportos do país, antes reduto exclusivo da classe média alta e dos ricos, começaram a receber uma gente diferenciada – para citar o pessoal de Higienópolis.

Nem se disfarçavam os maus bofes dos antigos usuários. Diziam que aquilo mais estava parecendo rodoviária: como podia aquela gente estar indo voar, quando claramente estava destinada a viajar de pinga-pinga, a andar de busão apertado dentro da cidade?

O frango tinha sido o símbolo da inclusão do governo FHC. O aeroporto se tornou o símbolo de um passo adiante dado pelo petismo. Oa país continuava desigual como poucos, mas certas coisas deixavam de ser privilégio da elite.

Aliás, a certo momento dos governos do PT, Delfim Netto chegou a prever que a própria existência das domésticas estava ameaçada. Segundo ele, as empregadas estavam se tornando um animal raro. Quem teve, teve. Quem não tem, não terá mais, dizia com sua finesse de sempre.

O governo promovia direitos, igualava os trabalhadores domésticos a quaisquer outros e avançava em uma direção que nem de longe agradava a todos.

A fala de Paulo Guedes sobre as domésticas indo para a Disney representa a chegada desses preconceituosos ao centro do poder. A farra acabou, as domésticas que se contentem com o destino que sempre lhes coube.

A declaração veio no meio de uma discussão sobre o dólar. O ministro, pressionado pela desvalorização de nossa moeda, deu uma resposta que até certo ponto fazia sentido: dólar alto é bom para exportações. Mas aí veio o resto e a máscara caiu.

Porque é aquela história: é impossível você mentir sobre a tua origem o tempo todo. Você pode fingir que está fazendo reformas para dar mais chances a todos, que é para o país não quebrar, que quer o bem da população em geral.

Mas uma hora vem o ato falho. Uma hora você deixa escapar. E aí você mostra para quem de fato esteve trabalhando o tempo todo. E mostra, ainda que sem querer, quem sempre foi teu alvo.

O governo de Jair Bolsonaro teve apoio de milhões de brasileiros nas urnas. Mas não podemos deixar que isso nos engane quanto a quem manda em Brasília hoje – são os mercados de capital, são os grandes investidores, é a elite que sempre mandou no país e que deu um jeito de retomar o comando depois de uma breve turbulência.

Bolsonaro é um governo como nunca vimos. Mas no fundo está a mando de quem sempre dominou o país desde tempos imemoriais.

Obrigado, Paulo Guedes, por nos lembrar disso de forma tão clara.

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