O ocaso de Beto Richa | Jornal Plural
15 jan 2019 - 0h00

O ocaso de Beto Richa

Às vésperas do ano novo, Beto Richa decidiu ir à piscina do Iate Clube de Caiobá. Não seria nada de estranhar: o tucano é frequentador…

Às vésperas do ano novo, Beto Richa decidiu ir à piscina do Iate Clube de Caiobá. Não seria nada de estranhar: o tucano é frequentador do local há muito tempo. Porém, dessa vez, segundo alguns amigos, tratava-se de um teste de popularidade. Beto queria saber se começava a sair do fundo do poço. Descobriu que não era o caso.

“É evidente que a intenção era fazer um teste, ver como estava o clima”, conta um político da capital. Segundo duas fontes ouvidas pelo Plural, porém, o resultado foi pífio. Beto, com uma rara barba crescida, não foi xingado – o que é um começo. Mas a recepção passou longe do que era antes. Testemunhas dizem que só quatro pessoas se aproximaram de Beto.

Um ano atrás, Beto era o homem mais poderoso do estado. Não só por estar no posto de governador, o que já seria suficiente. Mas também por ter conseguido o comando de um grupo político que parecia fadado a manter o poder nas mãos por um bom tempo – os dois (talvez os três) principais candidatos à sua sucessão flertavam com ele em busca de apoio, sabendo de sua força principalmente no interior.

Réveillon de Beto Richa antes da queda: no Bourbon, em Foz, debaixo dos holofotes.

Beto vivia naquela situação tão bem descrita por um ex-governador de São Paulo: durante sete anos, não precisou colocar a mão numa maçaneta, porque sempre havia algum acólito para abrir a porta antes que ele chegasse lá. Viajava de helicóptero, era recebido com pompas e tapetes vermelhos, e quem quisesse uma conversa com ele precisava passar por cima de um enorme aparato de proteção aos poderosos.

Em abril, quando renunciou ao governo, era visto como senador virtualmente eleito. Seu irmão, Pepe, era dado como deputado federal; o filho, como estadual; os secretários mais próximos imaginavam formar uma imensa bancada richista. A mulher, Fernanda, sonhava em ser prefeita em 2020. Hoje, tudo isso parece distante como a era dos dinossauros.

Ato II: a queda

A desgraça de Beto e de sua família, ironicamente, começou num 11 de setembro, quando o ex-governador recebeu ordem de prisão, junto com a mulher, o irmão e vários assessores. Era o ápice de várias denúncias de corrupção em seu governo. E o fim de sua campanha: Beto acabou a eleição em sexto lugar, perdendo para a candidata do PT e, em Curitiba, para candidatos inexpressivos como Zé Boni e Rodrigo Reis, ambos do PRTB.

A eleição de 7 de outubro foi o último ato da vida pública de Beto – pelo menos por enquanto. No dia 8, o ex-governador fez um post agradecendo os 377 mil votos (menos do que ele fez para a prefeitura) e desapareceu. Sumiu até das redes sociais. Fernanda ainda manteve algum contato com o mundo via Instagram, mas só. “Eles passaram a ter medo de sair de casa, de ser xingados, de enfrentar as pessoas”, diz um amigo que ainda manteve contato ocasionalmente.

No mundo político, Beto passou a ser um “amigo distante”, de quem as pessoas mal se lembram – os mesmos políticos que imploravam favores, se acotovelavam em seu gabinete agora dizem que nunca foram tão próximos. E quando alguém pergunta do ex-governador a resposta é sempre a mesma. “Nunca mais falei com ele.”

Beto e Pepe Richa visitam Romanelli e a esposa em Betaras. Foto: Instagram.

As exceções são raras. Todos dizem que Alexandre Curi (PSB) é um dos poucos que manteve a ligação e a amizade com Beto. Mas o deputado diz quer também não tem tido uma convivência muito intensa. Os dois se cruzam aqui e ali, no shopping, em algum lugar público, conversam. Mas é só.

Beto também não procura os “amigos” da política. Uma exceção foi a visita inusitada que fez ao seu ex-líder na Assembleia, Luiz Claudio Romanelli (PSB), no balneário de Betaras, pouco depois da virada do ano. De bicicleta, ele e o irmão Pepe (que voltou ao Brasil logo depois do fim do ano judiciário) passaram lá “para tomar uma água e conversar”, diz Romanelli, que é outro exemplo dos que não viraram as costas ao governador caído em desgraça.

Ano começa sem luxo para os Richa

A amigos, Beto se queixa de ingratidão. E também de não ser mais convidado para nada. As festas de fim de ano da família, por exemplo, em nada lembraram dessa vez os luxuosos réveillons em hotéis da fronteira. Beto e Fernanda passaram o Natal e a virada de ano com poucos (pouquíssimos) familiares, em Curitiba.

Segundo fontes que falaram com a reportagem em regime de confidencialidade, a rotina da família não mudou muito. Vizinhos dizem que tudo continua igual no condomínio. As atividades básicas seguem as mesmas – exceto pela badalação.

Quem conhece Beto de perto diz que, apesar de tudo, ele não parece particularmente abalado. Dizem que o casamento até saiu fortalecido da crise: que ele e Fernanda estariam mais próximos e unidos do que antes (na saúde e na doença, no governo e no opróbrio…).

Rara aparição de Beto nas redes sociais, em post de Hamilton Serighelli.

Mas é evidente para todos que Beto é carta fora do baralho. Mesmo que seja absolvido de todos os processos, que consiga esclarecer coisas que hoje parecem inexplicáveis, o tucano jamais voltará a ser o que foi. “Mas você sabe como é política”, diz um deputado que já foi confidente de Beto. “Nunca dá pra dizer que o sujeito está morto. Quem ia apostar uns dois anos atrás que o Bolsonaro ia ser presidente?”

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