Deltan tem final melancólico e necessário | Jornal Plural
Clube Kotter
1 set 2020 - 14h53

Deltan tem final melancólico e necessário

Procurador teve papel fundamental, mas se perdeu em partidarismo e desrespeito às leis

Deltan

O anúncio da saída de Deltan Dallagnol da Lava Jato é daquelas coisas que dividem o país. O pessoal que anda até hoje com adesivos em homenagem à força tarefa dirá que o mundo acabou, que a corrupção venceu. Os críticos do procurador dirão que ele já foi tarde. Isso já mostra o tamanho do problema que Deltan se tornou para a República.

Uma boa democracia não é feita por heróis, muito menos por pessoas que se consideram acima da lei. E assim como Lula, ou qualquer outro político, tem que responder por seus atos, um procurador da República também deve prestar contas do que faz. E quando chegou a hora de Deltan fazer sua prestação de contas, ele não estava pronto.

Nos quatro primeiros anos de Lava Jato, Deltan e Sergio Moro se transformaram em heróis populares – ganharam ares angelicais, como se fossem criaturas enviadas pelo céu, infalíveis, diante de um mundo corrupto que tentavam consertar. E de fato conseguiram ir muito longe.

A Lava Jato desmontou esquemas bilionários de corrupção. Prendeu gente que mandava e desmandava no país e com quem jamais ninguém ousou mexer. Bilhões foram recuperados, e isso é algo que ninguém vai poder tirar do currículo dos procuradores – nem de Sergio Moro. Os lulistas mais fanáticos jamais admitirão, mas houve feitos de fato heróicos na Lava Jato.

Lava Jato na descendente

No entanto, as coisas começaram a desandar. Os primeiros sinais de que a Lava Jato estava passando dos limites vieram com a clara obsessão com Lula. As cenas da condução coercitiva, a divulgação do áudio com Dilma, a sentença sem provas de Moro, o recorta e cola da juíza Gabriela Hardt – era impossível esconder o esforço da operação para pegar o presidente a qualquer custo.

A pá de cal foi a descoberta, pelo Intercept, das mensagens do celular de Deltan. A Vaza Jato foi uma incursão sem precedentes à cabeça de quem quer fazer justiça de modo absolutamente partidário. Deltan e seus colegas foram pegos combinando o que não pode ser combinado, obedecendo a ordens de um juiz, escolhendo apenas 30% dos processos para levar em frente, xingando o ex-presidente no velório de um parente e impedindo Lula de dar entrevistas porque isso, embora fosse da lei, poderia eleger um presidente que não lhes interessava.

Mais à frente, soube-se que Deltan começava a ter delírios de grandeza. Sonhava com o Senado e planejou um monumento em homenagem a si mesmo. Os procuradores colaram outdoors batendo palmas para o próprio trabalho e Deltan se recusou a entregar seu celular que poderia, talvez, demonstrar que as provas contra seu trabalho eram falsas.

Sem Moro, sem Deltan

A partir daí, restavam dois caminhos. Escolher Moro e Deltan para governar o país, não como presidentes, mas como reis absolutistas, que sequer precisam respeitar a lei, ou enquadrá-los.

Moro zarpou antes. Partiu para a política, escolhendo ser ministro do homem que mais lucrou com seu trabalho – ou alguém acha que Jair Bolsonaro se elegeria não fosse a Lava Jato. Acabou duplamente queimado, como juiz e como ministro. Mas, acredite, ainda pode ser presidente.

Deltan resistiu até onde pôde. Agora diz que sai da força-tarefa por motivos de doença na família. Pode ser verdade. Embora alguém possa ter convicção de que não foi isso que o levou a pedir a conta, não há provas. E sem provas, só com convicções, como se sabe, não se pode condenar ninguém.

A Lava Jato teve um começo promissor, conseguiu fatos inéditos e acabou se perdendo numa espiral de partidarismo, arrogância e desrespeito pela lei. A saída de Deltan não anula os erros passados. Também não anula os acertos. Mas pode ser o caminho para colocar o Ministério Público nos eixos de onde nunca deveria ter saído.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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