Bolsonaro cria "Lava Jato da educação" e trata professores como caso de polícia | Plural
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4 mar 2019 - 20h44

Bolsonaro cria “Lava Jato da educação” e trata professores como caso de polícia

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) deu início a uma guerra contra os professores do país nesta terça de carnaval. Pelo Twitter, anunciou uma “Lava Jato…

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) deu início a uma guerra contra os professores do país nesta terça de carnaval. Pelo Twitter, anunciou uma “Lava Jato da Educação” que, segundo ele, tem como objetivo “mudar as diretrizes ‘educacionais’ implementadas ao longo de décadas”. Os quatro posts são uma espécie de convocação a uma guerra santa contra a suposta “doutrinação” que existiria nas escolas brasileiras.

A retórica dos tuítes desta terça é moldada pelos discursos de campanha de Bolsonaro, mas com um falso revestimento de cultura. O presidente fala em “agenda globalista”, por exemplo, num eco de Olavo de Carvalho e do chanceler escolhido por ele, Ernesto Araújo. Cita dados do Pisa e orçamento e dá a entender que, com tanto dinheiro, a educação brasileira só é ruim por excesso de ideologia.

“O Brasil gasta mais em educação em relação ao PIB que a média de países desenvolvidos. Em 2003 o MEC gastava cerca de R$ 30 bi em Educação e em 2016, gastando 4 vezes mais, chegando a cerca de R$130 bi, ocupa as últimas posições no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA)”, diz o primeiro tuíte.

“Há algo de muito errado acontecendo: as prioridades a serem ensinadas e os recursos aplicados. Para investigar isso, o Ministério da Educação junto com o Ministério da Justiça, Polícia Federal, Advocacia e Controladoria Geral da União, criaram a Lava-Jato da Educação”, afirma o presidente.

Como se trata apenas de tuítes, não há como saber exatamente ainda como será a tal “Lava Jato”. Mas o exemplo citado, tocado pelo atual superministro-sem-poderes-para-nomear-uma-conselheira Sergio Moro, é o de uma operação policial. Encarar a educação como uma questão de polícia é típico de governos autoritários.

É costume das ditaduras e dos governos de exceção acreditar que a cultura, a educação, as artes e a imprensa estão trabalhando contra a ideologia que está no poder. A liberdade de pensamento daqueles que formam a opinião pública e formam os próprios cidadãos é vista como a primeira coisa a ser controlada.

Bolsonaro já demonstrou seu desprezo pela imprensa desde o dia em que se elegeu: escolhe quem pode e quem não pode participar de coletivas; cerceia o trabalho de jornalistas; avisa que quem der notícias contra seu governo será retaliado com corte de verbas; falta a coletivas marcadas.

A cultura e as artes também estão no horizonte, com todo o discurso de que a arte moderna não é elevada o suficiente, de que se trata apenas de um bando de gente pelada tentando perverter o público. A própria extinção do Ministério da Cultura fala alto.

Mas o principal alvo é mesmo a educação. Não por acaso, uma semana antes do anúncio da “Lava Jato” educacional, o bizarro ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, que já classificou de canibais os brasileiros, mandou que os alunos fossem filmados cantando o Hino Nacional e dizendo o slogan do governo Bolsonaro.

É preciso lavar a jato o cérebro da criançada com frases de efeito bolsonaristas. A primeira parte do trabalho já foi feita. Convenceram boa parte da imprensa de que existem mesmo professores malignamente incumbidos de perverter criancinhas, e de que seu nome é legião.

Essa era, obviamente, a fabricação de um vilão sob medida para o surgimento de um herói. Alguém que matasse na raiz este mal, aprovando o Escola sem Partido, varrendo Paulo Freire da sala de aula, tornando a universidade um Senai em que só importa a técnica, e jamais a discussão crítica.

Em seus posts, profeticamente Bolsonaro diz saber que haverá reações a seu policialato educacional.

“Dados iniciais revelam indícios muito fortes que a máquina está sendo usada para manutenção de algo que não interessa ao Brasil. Sabemos que isto pode acarretar greves e movimentos coordenados prejudicando o brasileiro. Em breve muito mais informações para o bem de nosso país.”

Mas explica que é preciso combater o globalismo (!?) para deixar de formar militantes e voltar a formar cidadãos.

A agenda globalista mira a divisão de classes. Pessoas divididas e sem valores são facilmente manipuladas. Mudar as diretrizes “educacionais” implementadas ao longo de décadas é uma de nossas metas para impedir o avanço da fábrica de militantes políticos para formarmos cidadãos.

A Lava Jato da educação vem aí. Como tudo que o atual governo promove, isso também se baseia em lendas urbanas, mais do que em realidades. Mas o que importa? Pelo menos ajudará a tirar das manchetes os evidentes atos de corrupção e as ligações dos Bolsonaro com as milícia.

De resto, é cantar o hino, vestir as meninas de rosa e baixar o benefício dos pobres velhinhos. Sem jamais discutir isso em público, muito menos na escola que, como todo mundo sabe, deve servir apenas para ensinar matemática. E jamais para ensinar a pensar.

 

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