Bolsonaro causa repulsa. Mas é preciso transformar isso em coragem | Jornal Plural
29 jul 2019 - 23h40

Bolsonaro causa repulsa. Mas é preciso transformar isso em coragem

É possível que não haja perfídia maior do que essa. Compactuar com um assassinato. Debochar de uma execução

As barbaridades de Jair Bolsonaro causam todo tipo de reação. Na maior parte das vezes, as pessoas se envergonham, se enfurecem ou sentem medo pelo que pode vir por aí.

Nas redes sociais, a reação mais normal (pelo menos para quem não vive numa bolha bolsonarista) é a de horror. Xinga-se muito, arrancam-se os cabelos, grita-se. É desespero. E não é para menos.

Mas a reação que mais me parece descrever o que de fato é o governo Bolsonaro foi relatada pelo repórter Jamil Chade, enviado do Estadão à Europa.

Foi pouco depois do carnaval. Um diplomata estrangeiro perguntou ao jornalista se era verdade que o próprio presidente havia postado um vídeo de golden shower na Internet.

Diante da confirmação, talvez um pouco constrangida, do repórter, o diplomata não riu, nem fez qualquer discurso mais longo. Apenas pôs a mão sobre o ombro do brasileiro e disse: “Courage!”

Certamente é preciso ter força para enfrentar o que nos está sendo imposto. Não que não soubéssemos. Mas é típico das tragédias que elas não se cansem de nos espantar, que não percam seu efeito só porque sabemos o que vai vir.

Bolsonaro é uma tragédia contínua para a democracia brasileira. Desrespeita os princípios mais elementares da democracia, da convivência civilizada, entra com facilidade incrível nos domínios da barbárie.

Pense só nos últimos dias.

Usar helicópteros da FAB para levar parentes a um casamento seria grave. Mais grave, porém, é chamar de idiota a pergunta de um jornalista sobre o tema.

Mas com Bolsonaro as coisas só pioram. E pior do que tratar como idiotice aquilo que é cidadania é ameaçar de prisão um repórter que está desvendando crimes graves e comportamentos inadequadas ligadas ao atual governo.

E fica ainda pior quando o mesmo jornalista é chamado de “malandro” por ter se casado no Brasil e ter filhos aqui, o que dificulta uma extradição.

E sempre pode piorar. E pode parecer que chegamos ao limite quando o presidente do país diz que pode contar a um filho como foi que seu pai “desapareceu” durante a ditadura, dando a entender que tinha contatos com esquadrões da morte do regime militar a ponto de saber como eram cometidas as execuções extrajudiciais da época.

É possível que não haja perfídia maior do que essa. Compactuar com um assassinato. Debochar de uma execução. Dizer a um filho que sabe como o pai foi morto, injustamente. Fazer troça disso. Fazer política com isso.

É repulsivo, nojento, é devastador para qualquer um que tenha estômago e ainda acredite em um projeto qualquer de civilização.

Bolsonaro é uma tragédia sem fim. Tristes de nós que temos entre nós – e à nossa frente – uma figura tão repugnante.

Mas tudo isso pode ser dito de forma muito mais simples, mais clara, em uma só palavra.

Coragem.

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