A última chance de Lula | Plural
8 nov 2019 - 21h39

A última chance de Lula

Lula é um mito. Precisa deixar de ser. A esquerda precisa ver nele um líder, mas não sua única opção

Lula foi preso exatos seis meses antes da eleição. Foi solto dez meses depois da posse de um governo eleito para desfazer o seu legado. Não sou adepto de teorias da conspiração, mas acredito em Sherlock Holmes: não confio em coincidências.

Nos dezenove meses em que Lula esteve preso, governou o país uma junta de magistrados, que fez reescrever a Constituição para prender aquele que podia batê-lo nas urnas. Depois de quase um ano da chegada de seu eleito ao poder, o descrédito começou a dar as caras – um pouco pelas revelações da imprensa alternativa e muito pelos tropeços do escolhido pela Lava Jato para a Presidência do país.

Jair Bolsonaro nunca foi nada na política nacional. Era um deputado com menos votos, menos carisma e menos influência do que Tiririca. Só batia o palhaço no quesito folclore. Virou mito não por seus méritos, mas pelas circunstâncias. Era preciso alguém de fora da política tradicional que parecesse capaz de desmontar o sistema, o mecanismo.

Mas Bolsonaro é um episódio passageiro na vida do país. Para a banca, o que interessa é Paulo Guedes. Para a elite, o que interessa é parar Lula. Bolsonaro? Era o rótulo necessário para fazer o novo mecanismo entrar em ação – era quem podia ter os votos.

Lula também é um mito, mas de outro tipo. Sua história o fez assim. E agora terá mais uma chance, quem sabe a última, de deixar algum legado duradouro – não como presidente, mas como mentor de uma esquerda que se desencaminhou. E muito.

Nos anos 1960, Francisco Julião era um mito, comandando a luta dos pequenos agricultores pela terra. João Pedro Stédile diz ter recebido dele um conselho, ao fundar o MST: não personificar demais o movimento. Mitos matam ideias; nascem delas para se apossar de sua substância e jogar fora o que restou.

Lula é um mito. Precisa deixar de ser. A esquerda precisa ver nele um líder, mas não sua única opção; não se pode virar refém de um homem que, por definição, é falho e mortal. Um projeto de país não pode depender de uma única carta, do carisma de uma única pessoa, ainda que essa pessoa seja de fato uma em um milhão.

Lula foi solto. Seu inferno passou. Mal comparando, é como se Getulio Vargas tivesse se recuperado do ferimento da bala e recebido mais uma chance – resta saber se Lula terá alguma serenidade para encontrar seu lugar na história.

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