O mundo de Almodóvar, Dor e Glória | Jornal Plural
26 ago 2020 - 11h52

O mundo de Almodóvar, Dor e Glória

Em seu mais recente filme, o cineasta espanhol faz as pazes consigo mesmo, e acertou as contas com todas as pessoas que conviveram com ele

Hoje vou falar de um ser humano que entende, como poucos, as seres humanas mulheres: Almodóvar. E do mais recente filme dele, Dor e Glória.

Todos os filmes dele giram em torno de mulheres, desejos, paixões, traições, histórias que se cruzam, gays, trans, e o submundo das grandes cidades da Espanha. Também entram outros elementos como ladrões, vícios, psicopatas, a Igreja Católica, mães e… mulheres de todo tipo e idades. E nem todos os homens heteros são más pessoas, ao contrário.

Tratam, além de tudo, de identidade – perdida, trocada, roubada, violada – e da sexualidade das pessoas.

Tudo isso já chocou muita gente. E Almodóvar fez os filmes para, entre outras coisas, causar choque. Emoções são importantes nas películas dele. Exageradas, como as cores e músicas que utiliza. Tudo é hiperlativo.

É o universo de Almodóvar. Como ele foi criado, as experiências por que passou, e as experiências de pessoas com quem ele conviveu. Nos anos 70, na era do ditador Franco, ele fez parte de La Movida, um grupo artístico de contracultura, e também de uma banda punk, em que se apresentava travestido.

Recentemente, com mais idade, ele passou a ter mais compaixão com o passado – dele e da Espanha.

Entre 1980 e 86, Almodóvar realizou seis longas, mas foi Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos que o projetou para outros países. Estrelado pela inesquecível e bela, a seu modo, Rossy de Palma, apresentou Antonio Banderas para o mundo. Penelope Cruz e outras atrizes espanholas – Marisa Paredes, Cecilia Roth, Adriana Ugarte e Carmen Maura – também foram lançadas para o mundo através de Pedro.

Todos os filmes – 21 longas que ele escreveu e dirigiu – devem ser incríveis. Falo isso porque assisti uns 14 e gostei de todos. 

É interessante rever todos agora com a minha idade e a dele. Sou 15 anos mais nova (Pedro nasceu em 1949). Quando os filmes de Almodóvar começaram a passar no Brasil, nos anos 80, a minha geração estava vivendo aqui, tardiamente, tudo o que ele viveu lá: punk, rock, drogas, descoberta da sexualidade, underground. Assistir de novo dá outra perspectiva e me faz gostar mais ainda dele.

Agora vamos a Dor e Glória, um filme excepcional. Grandioso, e ao mesmo tempo íntimo e intimista. Continuam as cores fortes e a música dramática (e bela). Mas Pedro realizou um filme que, se for o último da vida dele (não é, ainda bem), ele poderia morrer tranquilo. Fez as pazes consigo mesmo, e acertou as contas com todas as pessoas que conviveram com ele, com a Espanha, com a mãe, com a igreja. E com o mundo.

É abertamente autobiográfico. Banderas faz o papel de Almodóvar como um cineasta que convive com dores de todos os tipos e não consegue mais escrever nem dirigir – mas escrever e dirigir são a alma dele, então, como vai viver?

No início, em primeira pessoa, ele faz um resumo rápido da própria vida. Quando chega na parte atual ele diz, sobre uma colagem animada artística de raios x, esqueletos, nervos e coluna: 

  • Tenho tantas dores. De noite, quando me doem todas, eu sou católico. Rezo para Deus para parar com as dores. Quando me dói só uma, sou ateu.

A ternura com que ele trata os temas da própria vida me faz chorar mansinho toda vez que eu assisto. A descoberta de que era gay, embora aquele menino que morava numa caverna lindamente decorada pela mãe – um lar – não soubesse disso; o reencontro com o primeiro amor; a mãe jovem, papel de Penélope Cruz, lavando roupas num riacho e cantando com as amigas; a mãe idosa, e como ele fez as pazes com ela, são algumas dessas cenas.

Tem um diálogo com um ator de teatro que trabalhou no primeiro filme dele, com quem ele havia brigado, faz as pazes, briga e se reconcilia de novo, que eu acho que só poderia ser escrito por Almodóvar. É quando ele cede, pra esse ator, um texto autobiográfico que ele não queria encenar a princípio. 

É um monólogo, e ele (Banderas) não quer dirigir, nem assistir. Ele está aconselhando o ator e pede para ele não exagerar, embora o texto seja melodramático, e não chorar:

  • O bom ator não é o que chora. É o que retém as lágrimas.
  • Não se preocupe, Salva, eu sou um ator. E não quero perder nem um pingo da emoção que você colocou aqui. Muito obrigado. Você vai me ver, não é?
  • Se você for mal, eu vou me sentir mal. Se for bem, vou me sentir péssimo.

Almodóvar respondeu a uma pergunta de uma jornalista brasileira, Mirian Spritzer, durante o NY Film Festival em fevereiro deste ano:

  • Como foi dirigir Banderas?
  • A primeira pergunta que eu me fiz foi: Estou disposto a me mostrar de uma maneira tão aberta? Respondida essa pergunta, o resto fluiu. Como diretor, há uma distância; eu esqueci que o personagem do Antonio era, em parte, eu mesmo.

Por fim, Almodóvar usa a metalinguagem lindamente. Primeiro no monólogo. E na cena final, que não vou contar. Simplesmente: assistam Dolor y Gloria (Telecine) e todos os filmes almodovarianos que vocês puderem.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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