11 maio 2022 - 12h45

Expografia como experiência sensorial

Muita gente se pergunta como acontece uma exposição. Por isso,, conversei com o arquiteto Gustavo Paris sobre arquitetura de exposições, que vai muito além de levantar paredes

Este texto é uma continuidade da série de entrevistas com profissionais da arte, com o objetivo de sanar algumas dúvidas e curiosidades sobre o universo das exposições. Afinal, muita gente me pergunta como acontece uma exposição, quem são os profissionais envolvidos e quanto tempo leva todo o processo.

Por este motivo, o profissional que entrevistei hoje é o arquiteto de exposições. É ele que fica responsável pela expografia, ou seja, por materializar no espaço da exposição o conceito da curadoria. Isso envolve as tomadas de decisões relacionadas à circulação, ao posicionamento das obras, aos displays, à iluminação, entre outros. Considerando que o encontro entre o público e a arte é um momento chave, e que é composto não somente pela obra, mas por seu contexto, o papel do arquiteto é de reforçar a narrativa da proposta e imergir o visitante no universo da arte.

Gustavo Paris é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal (2017) do Paraná, e mestrando no PPGArtes, da Universidade Estadual do Paraná.  Suas pesquisas são voltadas para as relações entre arte e política no espaço público durante o regime militar brasileiro. Além disso, atua como colaborador no setor de Planejamento Cultural do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, e é sócio do Studio Mees.

Exposição “O labirinto da Luz – Orlando Azevedo” (2022). Foto: Gustavo Paris.

Gostaria de começar ouvindo um pouco sobre sua trajetória. Como você começou a ter contato com o mundo da arte e, principalmente, quando decidiu trabalhar com exposições?

Meu contato profissional com a arte é anterior à faculdade de arquitetura. Minha primeira experiência na graduação foi com o curso de Bacharelado em Música Popular da Faculdade de Artes do Paraná, entre 2008 e 2011, época em que atuei como instrumentista e professor. Porém, desde 2005 já fazia parte dos grupos de Maracatu de Curitiba, participando de apresentações e ministrando oficinas de percussão em diversas cidades do Paraná. Ingressei no curso de arquitetura em 2012 e, nesse tempo, trabalhei em duas livrarias e também atuei, no ano de 2016, como ilustrador. Assim, pulando de galho em galho, surgiu uma vaga de estágio na área de produção cultural no Museu Oscar Niemeyer em 2017, onde finalmente me aproximei das artes visuais e descobri todos os processos existentes por trás de uma exposição. Desde então, essa é minha área de atuação profissional (no setor de Planejamento Cultural do MON e no Studio MEES) e acadêmica, como mestrando do PPGArtes UNESPAR.

Qual o papel do arquiteto de exposições? É muito diferente do papel do arquiteto que atua em outras áreas?

A arquitetura de exposições é uma profissão que tem o papel de construir o lugar da materialização e multiplicação da poética, historiografia e linguagem de obras/artefatos e nos discursos curatoriais envolvidos em uma proposta de exposição. Para além dos conhecimentos básicos da arquitetura, relacionados à espacialidade, materiais, estruturas etc., ela se caracteriza principalmente pela necessidade de conhecimento sobre história da arte, curadoria e produção cultural, além de um mergulho profundo em cada projeto específico, o que corresponde à troca intensa com artistas e curadores – a expografia é um trabalho que se dá em paralelo à curadoria e à produção artística, o que, na minha opinião, trata-se de uma reorganização hierárquica do papel socialmente construído para a arquitetura na sociedade.

Como se dá o início do processo criativo na expografia?

 “Com a folha em branco” (risos). O processo criativo da expografia, pelo menos na minha vivência individual, sempre se inicia com algum tipo de fruição com as obras a serem expostas. Busco mergulhar, da forma que seja possível (algumas vezes tenho a oportunidade de visitar o acervo, em outras é por meio de imagens ou vídeos) na obra como um espectador que caiu ali de paraquedas – nesse sentido, quanto menos conhecimento prévio, melhor. Depois disso, tento escrever a respeito, buscar correlações com outras obras/linguagens artísticas e estabelecer espaços de troca (conversas com profissionais do meio) para firmar minhas impressões a respeito da produção artística e dos discursos empregados na curadoria em questão.

Exposição “Contar o Tempo” no Centro Cultural Maria Antonia – USP (2022). Foto: Lara Seleme Modro.

Existe um método, um passo-a-passo, para pensar a expografia ou é um processo orgânico?

No MEES, sistematizamos uma metodologia que começa com uma reunião de apresentação, onde recebemos da curadoria informações como o recorte curatorial (conceito da exposição, lista de obras a serem expostas e informações sobre os artistas), a caracterização do espaço pretendido e referências teóricas. Em seguida, desenvolvemos um conceito para a expografia que venha ao encontro das questões colocadas pela curadoria – do conceito, extraímos algumas premissas a serem apresentadas como proposta inicial (sempre a partir de referências), quais sejam, materiais a serem utilizados como suporte e organização espacial. Depois passamos para o estudo preliminar, etapa em que realmente apresentamos os primeiros desenhos e ideias sobre fluxos, setorização e mobiliário expositivo. Na sequência, desenvolvemos um projeto executivo, etapa de detalhamento, orçamentos, elaboração de cronogramas e acompanhamento de montagem.

O arquiteto tem autonomia de trabalho ou depende muito da instituição, do artista, da curadoria e de outros agentes para tomar algumas decisões? 

Creio que a arquitetura de exposições tenha autonomia desde que o projeto se adapte às múltiplas realidades que a ele são impostas. Para tanto, tudo deve surgir de uma comunicação muito transparente com os agentes envolvidos, que passa pela ciência dos recursos disponíveis para viabilização do projeto, saber que obras serão expostas, compreender a realidade política de certa instituição etc. A autonomia acaba se construindo dessa maneira. Falando da minha experiência na área, quanto mais direta e transparente a comunicação desde o início do processo, menor é a quantidade de reformulações do projeto e maior o nível de coparticipação com os demais profissionais inseridos no processo.

Exposição “O que é original?” de Marcelo Conrado. Foto: Eduardo Macarios.

Como podemos explicar, de maneira simplificada, para um público que não vive neste universo da arte, quem é e o que faz um arquiteto de exposições?

O arquiteto de exposições é quem concebe, em conjunto com o curador e o artista, a exposição como uma experiência sensorial, multiplicando a percepção do público sobre as obras de arte a partir da organização e tratamento de elementos espaciais, como cores, texturas, sons, temperaturas, iluminação, circulações, pontos de vista etc.

Que conselhos você daria para alguém que está tentando começar nessa área?

Objetivamente, para além dos conhecimentos sobre arquitetura, recomendo viver a arte: visitar exposições e museus sempre que possível (mas também valorizar toda forma de arte que se dá fora das galerias e museus), compreender noções sobre história e teoria da arte (e também sobre outras histórias e teorias que descentralizam o lugar histórico das artes), buscar cursos livres e de especialização na área e estabelecer uma relação contínua com o meio artístico. Subjetivamente: exercer a escuta sem jamais abandonar a indignação e levar discursos adiante com a consciência de que está levando também o seu próprio, porém como contribuição e não como prática de silenciamento.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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