22 jun 2022 - 7h49

Curitiba e a arte contemporânea da paisagem

Fato: a forma mais usual de se observar obras artísticas, atualmente, é por meio de um museu. Curitiba tem vários, e essa quantidade não abrange a paisagem

A primeira ideia que todos têm à mente de um museu de arte é a do famigerado cubo branco: um espaço fechado e desconectado do entorno que primazia a neutralidade para a apresentação das obras. Assim, aplicando esse modelo, uma escultura vista em uma galeria fechada no Brasil apresenta poucas variações se fosse vista em uma galeria fechada na Suíça, por exemplo. É certo que as necessidades de preservação e segurança são um fator importante, assim como a neutralidade quando o objetivo é captar a mesma impressão em espaços diferentes, mas como seria se as exposições fossem conectadas à paisagem?

Desde as primeiras representações geográficas do espaço em mapas até as grandes intervenções ao ar livre no cenário contemporâneo, a paisagem de alguma maneira esteve presente nas representações artísticas: funcionou como plano de fundo nas pinturas Renascentistas, adquiriu o poder de revelar emoções no período Romântico, manifestou efeitos atmosféricos e efêmeros no Impressionismo e pontuou elementos da transformação urbana no período do Modernismo. 

Entretanto, a relação adquiriu especial importância só a partir do final da década 1960, com o surgimento de manifestações de uma arte que retomou a fundo a paisagem como tema, quando artistas se propuseram a escapar dos circuitos comerciais das galerias de arte, encontrando, tanto em espaços públicos urbanos quanto em áreas rurais, ambientes idôneos para criar e mostrar suas novas concepções artísticas. Tais trabalhos, quando finalizados, não eram transportados para a galeria ou ao museu, pois a obra deveria pertencer inseparável ao lugar, onde adquire seu sentido e toda sua potência. Assim, não se pretendia representar a paisagem, mas sim trabalhar em e sobre a paisagem.

Nesse contexto surgiram, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, gêneros artísticos denominados Earthworks, Earth Art, Landscape Art, Land Art e Environmental Art, os quais podem ser agrupados como Arte Contemporânea da Paisagem – termo criado pela arquiteta, professora e artista plástica Cristiana Bernardi Isaac em sua tese de mestrado (2013), que o formula a partir de definições conceituais de bibliografias sobre Land e Environmental Art. Esse termo se justifica frente às diversas denominações e ramificações internacionais desse movimento artístico, somado ao não agrupamento de obras sob este ou similar título no Brasil.

Sincronicamente, em decorrência desse desenvolvimento da temática da paisagem, os museus artísticos igualmente evoluíram frente à necessidade de maior enlace com seu meio de inserção. Arquiteto, autor e professor, o português Nuno Grande em seu livro Museumania, Museus de Hoje, Modelos de Ontem (2009) designa uma tipologia museológica que justamente atende às novas emergências, denominada Museu Paisagem: caracterizado pela sua integração com o espaço externo e que surge como uma alternativa aos museus monumentais inseridos nos meios urbanos e densos, de forma que a paisagem é utilizada como suporte integrador. Nesse modelo, a paisagem seria moldada para conter o museu, e este, por sua vez, passaria a enquadrá-la estrategicamente enquanto cenário das peças expostas, havendo uma transposição do artificialismo da galeria para o ambiente exterior. São exemplos os museus Louisiana Museum of Modern Art na Dinamarca, Museu Serralves em Portugal e o Instituto Inhotim em Brumadinho, Minas Gerais.

Escultura de Hélio Oiticica no Instituto Inhotim.

Posto isso, é justo trazer este olhar para o próprio território de Curitiba – considerada rica em ambientes, eventos e manifestações artísticas além de um vasto repertório em apropriação do espaço público através de experiências coletivas junto à natureza. A questão é, como a arte e as instituições locais se relacionam com a paisagem?

Em geral, vemos uma escassez de espaços expositivos que dialoguem de maneira intrínseca com a paisagem. De antemão, é possível afirmar que boa parte dos edifícios destinados à arte não foram concebidos para serem espaços expositivos, o que implica em uma adaptação nem sempre adequada de construções já existentes (por vezes de interesse patrimonial e histórico) para abrigar atividades artísticas.

Dos doze exemplos de museus em Curitiba que expõem arte apresentados pelo IPPUC (2018), apenas dois foram construídos para este propósito – Museu Oscar Niemeyer (MON) e Museu Municipal de Arte (MuMA) – os demais – Museu de Arte Indígena, Museu de Arte Sacra, Museu Alfredo Andersen, Museu Guido Viaro e Museu Casa João Turin, Museu Da Gravura Da Cidade De Curitiba, Museu Da Fotografia da Cidade De Curitiba, Museu Da Imagem e Do Som, Museu do Paraná, Museu de Arte da UFPR, e o Museu de Arte Contemporânea – são frutos de adaptações de locais preexistentes, como residências, palacetes, espaços comerciais, universidades e igrejas.

Dos museus produto dessas adequações, é possível afirmar dois pontos: o primeiro consiste na restrição da variedade de acervo, visto que as obras, para serem expostas, estão condicionadas ao tamanho e abertura dos ambientes do edifício, por vezes fragmentado e reduzido. Já o segundo ponto incide na falta de diálogo que as obras e o próprio edifício apresentam com o entorno, já que as construções se voltam ao próprio interior e evitam aberturas.

Apesar dos exemplos fechados e restritos, os edifícios construídos com a finalidade artística já apresentam maior amplitude, flexibilidade e se aproximam de um diálogo com o ambiente exterior. O MON – inserido em um amplo terreno no Bairro do Centro Cívico limítrofe ao Bosque João Paulo II – realiza algumas amostras de obras que não se inserem nos ambientes fechados, mas sim nos vãos abertos no térreo, no gramado circundante e no reduzido pátio de esculturas localizado no piso inferior. Já o MuMA – inserido na malha urbana e acoplado ao Portão Cultural – também apresenta uma amostra pontual ao ar livre, a escultura de Tomie Ohtake localizada no estacionamento do Centro Cultural. Entretanto, essas manifestações externas são tímidas, de forma que não há no MON, no MuMA ou nos demais museus em Curitiba uma proposta concisa de diálogo e interação com a paisagem.

Pátio das Esculturas do MON localizado no piso inferior.

Em outro ponto além dos museus, a cidade em si também apresenta algumas obras expostas ao ar livre no espaço público, a ver esculturas e monumentos pontuais que se espalham como marco visual em praças, ruas, parques e rotatórias, a exemplo obras do artista Erbo Stenzel na praça Dezenove de Dezembro, A Fonte da Memória no centro da Praça Garibaldi e a escultura de Tomie Ohtake na Praça do Japão.

Contudo, segundo o artista e professor Geraldo Camargo em seu artigo sobre Esculturas Públicas em Curitiba e a Estética Autoritária (2005), essas esculturas e monumentos públicos tradicionalmente foram construídos e pensados segundo a lógica do poder vigente, para difusão e fixação de seus pontos de vista. Portanto, o propósito de sua construção não se assemelha à arte contemporânea da paisagem, mas sim, a um marco de transformação e comemoração histórica, materializando uma política de construção de símbolos concretos da nacionalidade e do poder.

Apesar do insucesso, outra tentativa que sinaliza o interesse na cidade por obras e espaços que dialoguem com o meio externo está a criação do Espaço Cultural de Frans Krajcberg no Jardim Botânico de Curitiba: galeria de 1300m² onde foram expostas mais de 100 esculturas doadas pelo artista feitas a partir de madeira queimada. Contudo, anos depois, segundo reportagem da Gazeta do Povo de 2017, o artista e a prefeitura entraram em conflito, acarretando na retirada das esculturas por Krajcberg em 2010.

Espaço Frans Krajcberg no Jardim Botânico de Curitiba.

Tal acontecimento acusa dois pontos: o primeiro é o reconhecimento dado pelo artista à cidade como local pertinente à exposição de suas obras e, o segundo é o motivo de sua retirada, decorrência de um projeto inadequado e da falta de manutenção e conservação do espaço. Essas duas questões assinalam a atração da cidade por obras que dialogam com a paisagem ao passo que simultaneamente sofrem prejuízos por não obter locais expositivos adequados para abrigá-las.

É certo que os espaços expositivos já existentes na capital não apresentam intenção ou propósito e nem têm o dever de atender às características de um museu paisagem. Entretanto, é de mesmo modo inegável a vocação, o reconhecimento e a atuação da cidade tanto na cultura artística quanto na valorização de sua paisagem e suas áreas livres. Sinais esses de que se é totalmente cabível a existência de um diálogo artístico no campo aberto, onde o limite possa atingir a própria paisagem.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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