Quando o consentimento não basta no sexo | Jornal Plural
9 jun 2020 - 21h12

Quando o consentimento não basta no sexo

Precisamos reaprender a ler o corpo e o rosto das pessoas

Muito se fala de consentimento atualmente.

E é bom que se fale.

Qualquer atitude que tomemos em relação a outra pessoa e que, assim, envolva a outra pessoa exige o consentimento dela.

Sobretudo no que diz respeito ao sexo, mas não só nesse aspecto.

Nas questões eróticas tenho procurado adotar o seguinte critério: consentimento não basta para ser consentimento de fato.

A pessoa não dizer um “não” não significa que ela está consentindo.

Há pessoas muito tímidas, incapazes de reagir em situações em que se sentem acuadas.

Há, por outro lado, pessoas também que preferem não demonstrar que estão se envolvendo na situação, para fingir que tudo é iniciativa do outro e que ela não tem “responsabilidade” ou “culpa”. Sim, existem homens e mulheres assim, por diversas razões que vamos explorar em outros textos.

Em ambos os casos, não me interesso eroticamente por nenhuma dessas situações.

Por outro lado, a pessoa dizer um “sim” não significa consentimento também.

Um sim pode ser dito por várias motivações: coação, medo generalizado de dizer “não”, hábito, não saber o que quer de fato ou incapacidade de diferenciar o que se quer e o que é vontade do outro. Muitas razões.

Um sim, simplesmente, não deveria ser suficiente para acontecer um interesse erótico.

Então, como saber o que é consentimento de fato?

Entusiasmo.

O entusiasmo nem sempre vem em palavras.

Às vezes vem em palavras, mas não em forma de “sim”.

Às vezes vem até em silêncio.

Então, para mim, há algum tempo, apenas o Consentimento Entusiasmado conta.

E como ler isso? Como detectar o Consentimento Entusiasmado?

Precisamos reaprender a ler o corpo e o rosto das pessoas.

O tom das palavras. O tom dos sins e dos nãos.

E, claro, na falta de saber ler ou não conseguir, perder o recato de pedir para que tudo seja expresso verbalmente com todos os pingos nos is, com carinho e escuta.

Mas se algo não está evidente, possivelmente, o tal entusiasmo talvez não esteja acontecendo: porque ele é evidente.

O entusiasmo erótico faz as pessoas “grudarem” física e energeticamente.

Meses atrás saí com uma pessoa e ela perguntou se podia me beijar.

  • Claro, eu disse.
  • Claro, não… a boca é sua. Eu preciso de consentimento.

Claro que eu respeito isso. Porém, confesso que aquilo me brochou um pouco. E, no entanto, ISSO ela não percebeu em mim. Apenas a minha palavra anterior, que, em tese, foi de consentimento.

O consentimento tem essa outra característica: ora consentimos entusiasmadamente e um segundo depois não consentimos mais. É uma dança. É preciso ler com sabedoria. Estamos perdendo isso? Ou nunca tivemos?

Quantas situações violentas aconteceram na cama e fora dela porque um parceiro não foi capaz de ouvir um não em alto e bom som ou perceber a expressão facial ou a tensão muscular da outra pessoa?

Tudo porque ele se agarrou a um consentimento inicial e que, talvez, nem fosse entusiasmado, repleto de alegria, erotismo e energia.

Será mesmo que precisamos pedir consentimento verbalmente sempre ou seria mais saudável aprender a ver e ouvir as pessoas e suas vontades, desejos e intenções?

Será que o próximo passo será levar um contrato para que nossas pessoas parceiras assinem antes de começarmos a tirar as roupas mecanicamente?

O consentimento verbal sempre será levado em conta. Não é não. O sim é que nem sempre é sim. Prefiro ignorar um sim “sem entusiasmo” por assim dizer e deixar pra lá. Caso não tenha ficado claro.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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