O método diferente de Milton Erickson tratar a depressão | Jornal Plural
Clube Kotter
31 ago 2020 - 17h34

O método diferente de Milton Erickson tratar a depressão

A depressão mais do que um estado emocional é uma condição de baixa energia que torna a vida, o prazer e mesmo a dor insuportáveis do ponto de vista estrutural

Certa vez, na década de 1950, o doutor Milton Erickson – psiquiatra, célebre hipnólogo e conhecido por seus métodos de tratamento pouco ortodoxos – foi procurado por uma pessoa cuja tia sofria de severa depressão.

A depressão, mais do que um estado emocional, é caracterizada por uma severa falta de energia biológica que pode ser causada por inúmeros motivos, muitos deles ainda em investigação.

Quer dizer, não é o mesmo que tristeza, como imagina o senso comum.

É pior: a pessoa não tem sequer forças para manifestar qualquer emoção, seja alegria, seja tristeza ou o mínimo de entusiasmo necessário para esse desafio diário que é sair da cama e viver.

As emoções são insuportáveis – no sentido de falta de estrutura mesmo – para as pessoas acometidas por esse mal.

A tia do rapaz, assim, tinha uma mansão, muito dinheiro, carros, um lindo jardim, empregados para ajudá-la e tudo que, supostamente, ao menos para os olhos de quem não tem essa doença, seria suficiente para viver uma vida aberta ao prazer.

Porém, não conseguia se relacionar com ninguém e só saía de casa para ir aos cultos de sua igreja. Mas não falava com pessoa nenhuma.

O fato de estar em uma cadeira de rodas, a retraía ainda mais, pois não queria chamar a atenção nas cerimônias. Isolava-se.

Suportava qualquer visita só durante curtos períodos de tempo, depois das quais preferia ficar sozinha.

O rapaz que buscou ajuda de Erickson relatou que ele mesmo ficava, se tanto, uma hora na companhia da senhora uma vez por mês, para ver como estava e já era muito.

Erickson prometeu visitar a agora paciente.

Dias depois bateu à porta da mansão. Foi atendido por uma empregada que chamou a tia do rapaz. Erickson pediu à senhora que lhe mostrasse a enorme casa.

E eles passearam por todos os aposentos. Enquanto Erickson observava a atitude daquela mulher que conduzia um estranho por sua casa como se aquilo nada significasse, ele buscava, ao mesmo tempo, qualquer coisa que pudesse usar.

E observou, na estufa – aquela estrutura de vidro em que se cultivam plantas -, alguns vasos de violetas. Alguns com violetas adultas de diferentes cores e outros com violetas brotadas – violetas bebê – e alguns outros vasos com folhas de violetas prontas para crescerem (violetas podem ser multiplicadas através de suas folhas).

Pediu que a mulher chamasse a empregada, pois ela ajudaria na prescrição para o tratamento. Demandou que fossem comprados dezenas de vasos e uma outra dezena menor de mudas de violetas.

E disse: a partir de agora, eu quero que a cada nascimento de criança, você a presenteie com uma violeta de seu próprio cultivo. Se alguém for batizado, também. Se alguém morrer, se alguém casar, se alguém inaugurar um negócio, se alguém chegar à vizinhança, se alguém voltar de viagem, se alguém estiver de partida… tudo seria pretexto para que ela desse uma violeta florescida, por ela cultivada, para alguém.

Em uma de suas entrevistas, ele explicou: violetas são difíceis de cultivar, mesmo para manter uma única viva é difícil; as menores variações de temperatura, irrigação ou quantidade de sol podem prejudicar seu crescimento e vida. Cuidar de uma já é difícil. Cuidar de centenas exige uma energia enorme.

Porém, como aquela pessoa já parecia gostar e ter facilidade para cuidar de violetas, decidiu usar aquilo para reacender o contato que ela tinha perdido com o mundo e reconectá-la com o prazer de viver e de estar junto dos outros.

Anos se passaram e, então, Erickson teve notícias da mulher.

Ela morreu em idade avançada, de causas naturais, repleta de amigos, amada, respeitada e conhecida como a Rainha das Violetas de Milwaukee.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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