As sequoias gigantes e por que você deve pegar fogo de vez em quando | Jornal Plural
10 jul 2020 - 22h40

As sequoias gigantes e por que você deve pegar fogo de vez em quando

Se não permitirmos sermos atingidos pelas nossas emoções, de vez em quando, se não formos permeáveis a elas, corremos o risco de sofrermos incêndios muito mais danosos eventualmente

O artigo de hoje explica por que você precisa pegar fogo de vez em quando e por que é natural que isso aconteça.

As sequoias-gigantes são aquelas árvores que encontramos nos Estados Unidos – particularmente na Califórnia – e que podem chegar a 115 metros de altura, 18 metros de diâmetro e a 4.500 anos de idade.  Talvez mais… vai saber…

Suas cascas podem ter 60 centímetros de espessura.

Algumas são consideradas “fósseis-vivos”.

Já faz algum tempo que se descobriu que, para a germinação das sequoias ocorrer, é preciso o fogo.

O fogo elimina a vegetação rasteira.

O ar extremamente quente sobe até a copas a partir do solo, onde a árvore está protegida pela grossa casca, e faz os cones secarem, se abrirem e dispersarem as sementes, que têm “asinhas” para melhor se espalhar, carregadas pela convecção provocada pelo calor do ar inferior, que sobe.

Cada pinha tem cerca de 200 sementes. As cinzas lá de baixo, restos do que parece ser um desastre, protegem aquelas que chegarem até ali. Pois a incidência dos raios ultravioletas pode ser danosa e os pequenos animais e insetos podem devorá-las.

Em meados do século XX, o controle dos fogos naturais nessas florestas, em vez de ajudar, atrapalhou.

O acúmulo de vegetação provocou incêndios muito mais intensos do que o que era natural ocorrer: as chamas tinham tamanha intensidade que poderiam atingir as copas das gigantescas árvores.

Ao mesmo tempo a ausência de fogos periódicos prejudicou o ciclo habitual de germinação: os cones não se abriam com a frequência necessária. Proteção demais.

Desde então, adotou-se um controle mais complexo dos fogos nessas florestas a fim de protegê-las e permitir seu desenvolvimento mais próximo do natural.

Assim também somos nós.

Se não permitirmos sermos atingidos pelas nossas emoções, de vez em quando, se não formos permeáveis a elas, corremos o risco de sofrermos incêndios muito mais danosos eventualmente.

Ao mesmo tempo, expostos a tudo o que a vida nos oferece em termos de experiências, sentimentos, pessoas, sensações, prazeres, dores, em doses suportáveis, periódicas e distribuídas, nossa casca será capaz de nos proteger: ela deveria ser flexível e ter a medida certa para a maioria dos eventos.

Acontece que muitos de nós, por uma série de acontecimentos em nossa vida, que vêm desde o útero, passam pela infância e adolescência, chegado a vida adulta, desenvolvemos tal medo da vida, que nos protegemos, evitando o calor intenso e saudável que só a vida bem vivida dá. Nos escondemos na floresta, olhando o mundo por uma pequena janela.

E assim, com tanta coisa acumulada no solo, ignorada ao longo do tempo, diante da menor faísca, da menor brisa que avive uma brasa dormente, podemos entrar em um processo incendiário difícil de controlar e que pode destruir até mesmo nossa conexão com as raízes e também a copa onde estão as folhas que deveriam sugar a energia que vem do sol. Por fim, não há mais ligação nem com o céu nem com a terra. Ficamos perdidos ou simplesmente morremos, metafórica ou literalmente.

Enfim, consome-se a própria vida, da qual tanto tentamos nos proteger. Quando os pequenos incêndios vierem, aceite-os, lide com eles: não os recuse. Eles farão sementes se espalhar e prepararão terreno para que germinem. Se precisar, busque ajuda terapêutica para suportá-los e superá-los. As árvores crescem melhor quando crescem juntas.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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