30 set 2021 - 8h20

Artaud na aula de Geografia

O jeito foi tentar levar o Teatro da Crueldade para a escola

Quando eu tinha quatorze anos, passei a frequentar sistematicamente a biblioteca pública. Não sei exatamente porque aportei por ali, com meus tênis mais gastos na parte de dentro do que na de fora graças às coxas mal encaixadas. Divido a culpa entre o professor de geografia, que afirmou ser importante ler os jornais todos os dias, e o Indiana Jones, cujas aventuras se iniciavam entre os livros. Entre um e outro, ganhei um cartão de sócio e o dever de devolver os livros em dia.

Acompanhar a imprensa diária era privilégio de quem acordava cedo, o que nunca foi meu caso, muito menos na adolescência. Os primeiros a chegarem na biblioteca pegavam os quatro jornais disponíveis. Assim, aprendi a ler o jornal do dia anterior, sempre à mão. Lembro que tentei explicar na escola que as notícias velhas, essas sim, eram um bom negócio. Minhas razões só serviram para colaborar com minha fama de menino esquisito.

Também levava os livros para casa, e só para descobrir como era difícil ler no prazo combinado. Quando atrasava, a multa eram três dias sem alugar para cada dia de atraso. Logo consegui a punição de 365 dias, graças a um Erasmo que eu acreditei que conseguiria ler e levei três meses para concluir que não.

Passei a reconhecer os habitués da biblioteca. Meu preferido era um senhor que sentava sempre na mesma mesa, próxima. A curiosidade adolescente era terrível: de alguma maneira, imperava descobrir o que o homem lia. Certo dia, quando ele se levantou, minhas pernas se moveram sozinhas e o acompanhei até a chapelaria. Parados lado a lado, questionei o que ele estava lendo. Ele me mostrou a capa, sem dizer uma palavra. O livro era estranho. Explicou que estava em francês, e que era o Artaud. A frase seguinte foi a que me marcou: “Vale a pena aprender francês só para ler o Artaud”. Decidi que precisava ao menos ler em português.

Comecei pelo Eu, Antonin Artaud, com tradução de Aníbal Fernandes. Não vou apresentar Artaud. Ele que se apresente:

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Depois avancei para o Heliogabalo ou o Anarquista Coroado, e assim descobri que o bom dos livros de poesia é que sempre conseguia devolvê-los no prazo. Descobri também o Teatro da Crueldade. Pensava Artaud em dinamitar a distância que separa atores e plateia. Pense no público bem arrumado, sentado no escuro, talvez dividindo um M&Ms enquanto Julieta se suicida diante do corpo de Romeu. Artaud pensava mesmo em arrancar as pessoas das suas cadeiras e forçá-las a chorar junto. Pense no fantasma do pai de Hamlet, que não assusta ninguém: Artaud queria a plateia tendo pesadelos.

Não se tratava de chocar, mas de usar o teatro para lançar o público contra as certezas que a sociedade divide entre si. É partir o teatro do nível pré-verbal da consciência, bater fundo, vibrar o íntimo do que há de humano em nós. O exemplo no Brasil é o Teatro Oficina, do Zé Celso. O melhor exemplo é o próprio Artaud, que certa vez apresentou numa sala da Sorbonne o que seria uma palestra sobre O Teatro e a Peste. Talvez a ideia de Artaud — e quem pode dizer qual era a ideia de Artaud? — fosse nos lembrar que durante a peste surgiram peças de teatro e obras de arte maravilhosas, pois o homem, fustigado pelo medo da morte, busca a imortalidade, a evasão, procura ultrapassar-se, palavras Anaïs Nin, autora francesa que presenciou tudo. De uma hora para outra, contudo, Artaud abandonou a sequência da explanação para representar alguém morrendo de peste. Imaginem o rosto convulsionando, os cabelos suados grudados na testa, os olhos fundos, uivos, gritos e delírios. As pessoas se calaram, depois riram, gargalharam, vaiaram, e depois, um após o outro, abandonaram a sala, batendo a porta, ruidosamente. Artaud seguiu até o fim.

O que mais me chamou a atenção em Artaud foi sua biografia. Não era apenas escrever sobre o Teatro da Crueldade, mas vivê-lo. É o mesmo que encontramos em Vinicius de Moraes, que não apenas compôs que seja eterno enquanto dure, mas o viveu em seus nove casamentos e quem sabe quantos amores. Em Artaud, tudo é a obra. Suas cartas, suas frases, seus textos incompletos, sua biografia — suas ideias são indissociáveis da viagem ao México e as experiências com o peyote, da viagem à Irlanda portando seu “bastão mágico”, das internações em manicômios e o tratamento com eletrochoque.

Quando terminei de ler o Escritos de Antonin Artaud, organizado pelo incrível Claudio Willer para a coleção “Rebeldes & Malditos”, pedi a meus pais que me levassem para assistir o Teatro Oficina. Eu já tinha lido demais. Precisava ver como aquilo funcionava de verdade. De pronto eles lembraram de qualquer coisa sobre os atores sem roupas, bem como escolhendo alguém da plateia para também se despir e responderam que eu não tinha idade para aquilo. Ir à biblioteca sozinho era o limite da minha liberdade.

O jeito foi tentar levar o Teatro da Crueldade para a escola. A ocasião foi um trabalho de geografia sobre a América do Sul. Propus ao grupo abandonarmos os cartazes, cartolinas, canetinhas coloridas e nos fantasiarmos cada qual de um país, interpretando-o. Eu estava pronto para ser a Guiana Francesa, e apenas para poder proferir a máxima “vale a pena aprender francês só para representar a Guiana”.

Preferiram um jogral.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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