Migração, ciência e magia em Cidade Pássaro | Jornal Plural
25 fev 2021 - 1h00

Migração, ciência e magia em Cidade Pássaro

Com poesia, longa de Matias Mariani acompanha nigeriano em São Paulo a procura de irmão

Cidade Pássaro é um filme sobre migração e sobre o que há ou poderia haver de mágico em uma metrópole como São Paulo. Os meandros do longa-metragem de Matias Mariani são um labirinto claustrofóbico de histórias e encontros dotados de mistério e poesia. Delicada, a história narra a vinda de Amadi (O.C. Ukeje), um músico nigeriano que procura, no Brasil, por seu irmão Ikenna (Chukwudi Iwuji). Faz anos que Ikenna deixou sua terra natal, mas Amadi sabe onde seu irmão mais velho trabalha como professor de matemática. Contudo, Ikenna criou toda uma narrativa que não condiz com a realidade. Ele não se tornou professor no Brasil e o prédio que sua família viu na foto enviada anos atrás por e-mail não era o de uma faculdade.

É aqui que começa o mistério, já que Amadi tentará achar seu irmão a partir de parcas pistas. E é aqui, também, em que entra a mágica, já que nessa procura ele é transportado por um fio de pistas que lhe surgem meio que ao acaso, impossíveis demais de acontecer se não fosse a mão do destino ou do roteirista atuando de forma feroz. Essa miríade de coincidências a princípio até parece um problema para o filme, não fosse a descoberta que o irmão desaparecido andava investigando uma espécie de algoritmo para tudo saber e descobrir (alô Aronofsky!). Pois é, não é das ideias mais originais. Ainda assim, funciona dentro da dualidade fé e razão, imaginação e realidade a qual o longa se propõe. Ikenna sempre foi o irmão imaginativo, o mais fluido e o que deixou tudo para trás em busca de sonhos.

Galeria no centro de São Paulo. Local foi usado como locação para o filme de Mariani. Crédito da foto: divulgação.

Um outro braço interessante proposto em Cidade Pássaro é a sua proximidade com o afrofuturismo, espécie de escola ou movimento que aposta na ficção científica como caminho empoderador para tratar da cultura negra e suas vertentes. É esse o traço mágico do filme.

Amadi e Ikenna são nigerianos da etnia Igbo. Comumente encontrados em São Paulo, Mariani se interessou pela cultura desses imigrantes para falar de sua cidade. São Paulo é um caldeirão de diversas culturas, de imigrantes de todos os cantos do mundo, mas pouco retratada no cinema a partir desse ponto de vista, o da confluência de visões de mundos distintos. Em sua pesquisa, deu aulas de português para nigerianos e chegou a passar uma temporada na África.

Cena de Cidade Pássaro, gravada no edifício Martinelli, no centro de São Paulo. A capital paulista é um caldeirão de diversas culturas, de imigrantes de todos os cantos do mundo. Crédito da foto: divulgação.

O resultado, alcançado a partir de um roteiro escrito por sete pessoas, é o de uma aproximação pouco usual com a questão da imigração. É, também, uma obra que vê o outro, o estranho, com respeito e complexidade. Não há lugar em Cidade Pássaro para uma visão estereotipada do estrangeiro.

Matias Mariani estreou Cidade Pássaro no último Festival de Berlim, mas logo viu a carreira do filme em festivais sendo interrompida pela pandemia. A sorte, quase mágica, foi a da Netflix se interessar pelo produto, deixando-o disponível para cerca de 190 países.


Para ir além

Cidade Pássaro – 2020, FIC, 102 min. Disponível na Netflix

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