Empatia é algo belo demais para reservar a poucos | Plural
21 jun 2019 - 6h00

Empatia é algo belo demais para reservar a poucos

Precisamos nos questionar sobre nossos preconceitos e mudar o modo como vemos os outros

Eu desejo que tenhamos relações mais empáticas. Vamos conversar com mais empatia. Leio recorrentemente essas e outras frases em grupos de Whatsapp, em mensagens postadas nas redes sociais. Por vezes, eu as ouço em conversas despretensiosas em cafés – quando estou sozinha e é inevitável não ser um pouco “ouvinte sem ser convidada” da conversa alheia. Tenho certeza que você já passou por isso.

Por um momento me encho de esperança, de vislumbrar que as pessoas estão percebendo que, sim, de fato, precisamos ser seres humanos mais empáticos. Mas, essa esperança ganha algumas rachaduras quando no emaranhado de mensagens que clamam por empatia, surgem – das mesmas pessoas – um forte desejo de banir migrantes de suas cidades, de seus bairros, por exemplo. De repente, aqueles e aquelas que clamam por empatia expressam seu real sentimento de raiva ao ver pessoas de outras nacionalidades trabalhando em nosso país, em nosso estado.

“Esse bando que veio roubar nossos empregos”, disse uma vizinha que adora a palavra empatia. O que talvez a vizinha nem saiba é que uma em cada quatro pessoas refugiadas é empreendedora no Brasil, ou seja, tem um negócio próprio. Desses refugiados empreendedores, cerca de 4% estão empregando outras pessoas, de acordo com dados da pesquisa Perfil Socioeconômico dos Refugiados no Brasil ( 2019), elaborada pelo ACNUR em parceria com universidades brasileiras. 

O Karim, um rapaz da síria que está refugiado no Brasil, está trabalhando como motorista de uber, por exemplo. Já, a Myria, também da Síria, zerou o jogo do empreendedorismo. Ela tem uma marca de joias com pedras brasileiras; tem uma banda, a Alma Síria, com o irmão e a cunhada; tem empresa de encomenda de comida árabe com os pais, a Yasmin Comida Árabe; e, assim, de vez em quando, organiza encontros transculturais na casa de sua família para pequenos grupos fechados.

Olhe ao redor e veremos pessoas. Não refugiados. Pessoas, tentando encontrar caminhos de existir e ter uma vida digna como eu e você. O Paraná está entre os três estados que mais acolhem pessoas refugiadas no Brasil. Logo, como essas pessoas estão sendo acolhidas deve ser uma preocupação de quem vive no Paraná. Se ao olhar para o lado, enxergarmos mais obstáculos nos caminhos deles e delas do que nos nossos, quero acreditar que somos capazes de ir lá e agir em favor desse outro, dessa outra. Toda a humanidade perde quando algumas vidas estão sendo violadas, negligenciadas.

Às vezes, me pergunto, e se as pessoas descobrissem que empatia não é só uma palavra bonita e muito menos está associada a benefício próprio? Será que continuariam desejando empatia ou encontrariam uma outra palavra para esvaziar do seu sentido que abarca o coletivo e preenchê-la com um sentido que comporta apenas o próprio grande eu?

Empatia começa com o reconhecimento e a afirmação do outro, da outra. Para desenvolvermos empatia é preciso considerar legítima a expressão de sentimento e necessidade desse alguém que não sou eu. É claro que é mais fácil desenvolver empatia entre aqueles e aquelas que compartilham semelhanças, como: estão na mesma classe social, autoindentificam-se com a mesma raça, percebem-se com o mesmo gênero. Porém, é muito possível desenvolver empatia para além do universo das semelhanças e essa é a beleza dessa palavra, essa é a força que ela representa.

No caso da população refugiada no Brasil, os três fatores que mais dificultam a integração dessas pessoas ao país são: o preconceito por ser estrangeiro (xenofobia), o preconceito pela raça (racismo), o preconceito pela orientação sexual (homofobia ou transfobia), segundo os dados da pesquisa citada anteriormente. Preconceitos que podem se concretizar em atos discriminatórios psicológicos ou físicos, mas que também podem aparecer de forma velada, como por exemplo dificultando o atendimento médico a pessoas refugiadas.

O aprendizado da empatia talvez possa transformar esse preconceito estrutural, que surge e se perpetua por meio das nossas relações sociais. Surpreenda-se você, o aprendizado da empatia só acontece no coletivo. Ninguém desenvolve empatia em relação a outras pessoas sozinho. A empatia se aprende devido ao trabalho dos nossos “neurônios-espelho”. Sabe quando alguém começa a chorar e você automaticamente tem vontade de chorar junto? São os neurônios-espelho trabalhando. E você só chora junto porque o seu cérebro reconhece que você conhece aquela reação, ela é familiar para você. Para desenvolver empatia acerca da situação de refúgio, podemos prestar atenção nas pessoas que passam por isso, conversar.

Talvez, para muitas e muitos de nós seja inimaginável o que a população da Venezuela esteja passando. Eu mesmo nunca estive lá. Não conheço a Venezuela. Mas, há algumas necessidades e sentimentos que essas pessoas estão passando e que qualquer um de nós pode reconhecer: a necessidade de segurança, o sentimento de se sentir em paz. A necessidade de segurança é algo que os brasileiros conhecem bem, aliás, foi com um discurso pautado nessa necessidade que o atual presidente se elegeu. Você lembra? A população venezuelana também tem necessidade de segurança. Acredite! Os mais de 17 mil venezuelanos e venezuelanas que estão solicitando refúgio em nosso país estão buscando suprir essa mesma necessidade. Almejam poder sentir paz novamente.

O medo brasileiro de que essa população torna o país mais violento ou inseguro é um mito pautado no imaginário coletivo de que o estrangeiro representa o mal, de que o estrangeiro é um criminoso. E são mitos como esses que sustentam preconceitos. Se nos permitirmos substituir mitos antigos – até mesmo milenares – por outras narrativas construídas em fatos (não em fake news) e na compreensão de nossa humanidade, de nossas necessidades e sentimentos comuns, talvez possamos nos ajudar enquanto sociedade. Talvez possamos, de fato, sermos uma sociedade livre de preconceitos e mais empática.

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