A crise da Educação | Jornal Plural
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19 maio 2019 - 13h16

A crise da Educação

É preciso assumir a responsabilidade pelo mundo perante as crianças, diz Daniel Medeiros

Em 1957, a pensadora alemã Hannah Arendt, exilada nos EUA,  publicou um artigo falando sobre a Educação e a sua crise. Para ela, “uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com preconceitos. Uma atitude dessas não apenas aguça a crise como nos priva da experiência da realidade e da oportunidade por ela proporcionada à reflexão.” Ou seja, a crise é também uma oportunidade. Mas uma oportunidade que normalmente é perdida por conta do acirramento dos espíritos. Mas a filósofa – ah, os filósofos! – buscou entender e explicar. E hoje, em meio às nossas próprias crises, ainda podemos ouvi-la.

Para Hannah Arendt, a essência da Educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo. E por isso é preciso orientá-los sobre o mundo e protegê-los do mundo.

Uma das urgências da Educação, portanto, é a formação dos professores. Não basta que eles saibam conteúdos, mas que se disponham a se responsabilizar por essa apresentação do mundo às crianças. As crianças não devem ser excluídas do mundo dos adultos, mas preparadas para ingressarem nele com a consciência de que o mundo é frágil e, ao mesmo tempo, perigoso. O mundo, igualmente, precisa constantemente ser mudado – e por isso o novo é tão importante – mas também precisa ser preservado – e por isso o novo é tão ameaçador.

Normalmente a criança é introduzida ao mundo pela primeira vez através da escola. No entanto, a escola não é de modo algum o mundo, e não deve fingir sê-lo; ela é, em vez disso, a instituição que interpomos entre o domínio privado do lar e o mundo com o objetivo de fazer com que seja possível a transição, de alguma forma, da família para o mundo. Na medida em que a criança não tem familiaridade com o mundo, deve-se introduzi-la, aos poucos a ele; na medida em que ela é nova, deve-se cuidar para que essa coisa nova frua o mundo sem destrui-lo e sem correr o risco de se destruir. E essa responsabilidade pelo mundo, que na escola  é papel do professor, assume a forma de autoridade, que é diferente da ideia simples de qualificação .

A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos os habitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo: Isso é o nosso mundo!

Hannah Arendt é enfática: “Qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso proibi-las de tomar parte em sua educação.”

E onde há a crise da Educação? No fato de que muitos adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo perante as crianças.

Para a filósofa, o que vem acontecendo é o seguinte: é  como se os pais e professores dissessem todos os dias para as crianças: “Nesse mundo, mesmo nós não estamos muito a salvo em casa; como se movimentar nele, o que saber, quais habilidades dominar, tudo isso também são mistérios para nós. Vocês devem tentar entender isso do jeito que puderem: em todo caso, não têm o direito de exigir satisfações. Somo inocentes, lavamos as nossas mãos por vocês.”  Essa é a crise da Educação. E ela põe em risco o mundo. E todos os que vêm para o mundo.

Essa crise é, também, uma crise da tradição. Para os gregos e romanos, educar era simplesmente fazer ver que somos dignos de nossos antepassados. Neste sentido, o educador não é só detentor de autoridade, mas é, também, companheiro da mesma viagem de se fazer merecedor de um passado do mundo comum, herança para os  vivos. Porém, com a quebra da tradição, só resta ir para frente, pois voltar para trás só nos levará até o momento da ruptura, em um looping sem saída.  Ou então nos resta acreditar, cinicamente, que a crise nunca atingirá nossa esfera particular de vida. O que é mais provável, porém, é que essa ruptura com a tradição de cuidar do mundo e mediar o que temos com as novas ideias, só pode aumentar o estranhamento do mundo pelo qual já somos ameaçados por todos os lados.

Hannah Arendt conclui: Não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação sem aprendizagem é vazia e portanto degenera, com muita facilidade, em retórica moral e emocional. É muito fácil, porém, ensinar sem educar, e pode-se aprender durante o dia todo sem por isso ser educado. 

A Educação é onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum, dos que estão aqui e de todos os que virão.

Muitos poderiam dizer: “Ah, isso nós já sabemos! Qual é a novidade? “

Aí que está, eu diria: não há novidade. De tudo já sabemos. Mas, como disse o poeta, agora só nos resta aprender.

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