“Surubão” do Izakaya: por que é preciso descatequizar o pensamento? | Jornal Plural
27 jan 2021 - 12h06

“Surubão” do Izakaya: por que é preciso descatequizar o pensamento?

De fato, é uma vergonha aglomerar. Mas as infâmias tinham que acabar aí

No último fim de semana, não se falou de outra coisa que não fosse o “surubão” do Izakaya Hyotan. Se você viu o pessoal comentando na sua timeline e não entendeu do que se tratava, eu explico. A página Brasil Fede Covid, que vem denunciando aglomerações em todo o país, publicou fotos de cunho sexual tiradas dentro do restaurante curitibano. Era um encontro fechado para um grupo de aproximadamente dez pessoas que posaram nuas em cima da mesa, dentro da cozinha, coisa e tal.

Estamos enfrentando uma crise sanitária e esse era pra ser o maior problema do evento: uma pequena aglomeração que zombava dos protocolos de segurança contra o coronavírus. Eles eram impraticáveis naquele contexto. Primeiro que não foram decretadas regras para surubas, mas festas estão proibidas. Segundo que podia até haver distanciamento emocional entre os envolvidos, mas físico claramente não havia. Terceiro que, como diz a minha avó, não é bonito ser feio. Precisava mesmo exibir o erro no Instagram

(Aliás, o restaurante publicou uma nota garantindo que as imagens são velhas. Ouvi de boas fontes, em off, que isso não é verdade, mas também não estou aqui para condenar ninguém sem julgamento, então leia a versão dos caras aí.)

Quero mesmo é falar de outra coisa.

Não pude deixar de notar que no dia anterior a mesma página denunciou outra festa clandestina em Curitiba – e tinha muito mais gente sem máscara. Por que, então, a suruba é que viralizou? Joguei o nome do estabelecimento no Twitter e os comentários deram uma boa pista. Eles reforçavam pelo menos três moralismos que o cristianismo tratou de cristalizar até mesmo entre os meus conterrâneos mais descolados: os corpos são sujos; o sexo é sujo; a não monogamia é suja. 

Muita gente ficou enojada ao ver pessoas sem roupa cozinhando a própria comida e transando na mesa dos clientes. Ainda que o estabelecimento não estivesse aberto para o público geral; ainda que o grupo provavelmente tivesse suas próprias regras pactuadas e isso não seja da nossa conta; ainda que geralmente as cozinhas de restaurante sejam desinfetadas diariamente; ainda que as mesas sejam limpas constantemente.

Fiquei me perguntando – com certo pesar – se os twitteiros só transam na cama. Nenhuma aventurazinha no passa-pratos? Não mesmo? Recorro a outra sabedoria popular: o que é de gosto regala a vida.

(Outro adendo: espero que os proprietários tenham limpado a cozinha, em respeito aos demais clientes. Mas essa investigação é trabalho para a Vigilância Sanitária. Sigamos no foco.)

Outros teceram comentários mais diretos (e infelizes) sobre os corpos envolvidos na cena. Sim, papo de estética. É cool falar de autoaceitação, mas quem quer se repensar criticamente antes de navegar no hype da internet? Raciocina, criatura: de onde vem essa imposição de padrões de beleza que você está reproduzindo?

Cá entre nós, como é cafona o preconceito.

Também vale grifar o que está no subtexto. O frisson generalizado é totalmente proporcional ao tamanho do tabu que é o sexo dentro da nossa sociedade, especialmente quando não monogâmico. Deixo mais algumas perguntas retóricas, pega aí: será que na hora de comentar suruba vale tudo? Vale até ofender? Vale até botar o pensamento crítico no bolso? Por que você acha que tem o direito de envenenar o corpo alheio com o seu agrotóxico moralista?

Descolonizar é preciso

No artigo “Sexualidade, cristianismo e poder”, a doutora em psicologia Bruna Suruagy do Amaral Dantas lança a seguinte reflexão: “Tornar o matrimônio uma instituição pública e sagrada permitiu ao clero romano consolidar seu poder político e ampliar sua intervenção na vida íntima dos fiéis. O que pode gerar mais poder a uma instituição do que a capacidade de controlar a intimidade das pessoas e ter acesso a seus segredos?”

A citação é curta, mas diz tanto… Quando as embarcações portuguesas chegaram ao Brasil, os indígenas não usavam roupas, não condenavam o sexo, não colonizavam os corpos. Eram livres. Quem trouxe vestimenta, vergonha e genocídio foram os “cidadãos de bem” daquela época – e que seguem os mesmos. A classe dominante. Homens cishéteros brancos a mando do cristianismo. Conhece essa história?

No fundo, você que é “desconstruído” sabe como é. O discurso que valida o corpo como templo sagrado do espírito santo é o mesmo que autoriza a misoginia; que pune o aborto; que cria a transfobia. Por isso é tão importante repensar a sua piadoca: ela ajuda a alimentar toda uma cadeia de preconceitos, violência e morte. O seu nojo do corpo e das práticas sexuais do colega também é um problema estrutural.

Nesta semana, durante o evento “Till Reason Do Us Part”, uma das maiores pesquisadoras brasileiras da questão indígena no período colonial, a doutora em história Vânia Maria Losada Moreira, disse que colonização e catequização andavam juntas há 500 anos. “A imposição do casamento monogâmico aos indígenas virou uma obsessão dos missionários. Uma obsessão e uma perseguição.” 

Completo dizendo que a obsessão pela “pureza” da “exclusividade” e a perseguição aos dissidentes duram até os dias de hoje. Vira e mexe, o exercício é se perguntar: quem sou eu nesse cenário? 

Rezo para que você não esteja na posição de missionário.

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29 comentários sobre ““Surubão” do Izakaya: por que é preciso descatequizar o pensamento?

  1. Sério que vocês vão passar pano pra isso? Nem que não fosse pandemia seria tolerável suruba em cozinha de restaurante. Na sua casa faça o que quiser, mas no lugar em que você vende comida pros outros?? Sinceramente, vocês perderam a noção de tudo.

    1. Exatamente!!! As críticas que eu vi versavam sobre o MOMENTO (pandemia) e o LOCAL (restaurante) da suruba, e não sobre o ato em si. Criticar sexo em cima da mesa e na cozinha de um restaurante agora é ser careta? Por favor. Melhorem. Quer transar na cozinha da sua casa? Ótimo. Agora, minimizar o problema, colocando em simples parênteses que isso é um mero problema da vigilância sanitária, é muito mau caratismo.

      1. Só confirmaram o argumento da autora que as pessoas acham corpos e sexo sujos. Até parece que não pode ser limpo o ambiente. Estaria preocupado sim se visse ratos e baratas num restaurante.

  2. Que lixo de coluna foi essa? Cara, é restaurante, é mesa, façam o que quiserem, quem não gosta de uma putaria?
    Mas eu não posso fazer putaria aqui no meu escritório e postar e pensar que meus clientes não vão dar bola, isso que trabalho com software, imagina com comida? Sobre a mesa?
    Esqueçam, falem o que quiser, vcs e eles, não é sobre suruba, é sobre falta de respeito com o cliente, se fazem sexo sobre a mesa e postam, imagina o que não fazem na higiene, cozinha e tudo mais, e ninguém fica sabendo?
    Vão passar pano na casa do caralho, nunca foi por moralismo, foi sim pela falta de respeito e nota debochada do proprietário, no primeiro momento, depois ele viu que deu um tiro no pé e tenta aliviar.
    Não vai conseguir, vou botar um monte de gente pelada sobre uma mesa aqui em casa, transar sobre ela e convidar este jornalista para um jantar aqui sobre esta mesa, quero ver sua opinião mudar drasticamente.
    Hipócritas passa pano.

  3. Nossa, gosto muito do Plural, mas fiquei chocado com isso. Passada de pano pra esse absurdo?

    Se alguém não gostou disso por moralismo, eles que se amargurem aí. Os problemas de verdade aqui são outros.

    Aglomeração em plena pandemia e atitudes totalmente contra qualquer normal sanitária. Você usa parágrafos e parágrafos para discutir o moralismo sendo que o real problema é para você só uma nota de rodapé. E, particularmente, eu vi bem pouca gente julgando a orgia ou os corpos nas redes, em comparação com condenações à aglomeração e falta total de higiene.

    Sem falar da atitude extremamente arrogante e debochada do dono do lugar depois, que certamente não passaria fácil assim caso fosse mulher. É por causa de coisas como essa coluna que esse absurdo vai passar batido e o lugar só tende a crescer mais.

    Ah, e a hipocrisia, né? O bar foi um dos signatários pró-lockdown.

    Continuem banalizando o absurdo e vejam onde vamos parar. Já estamos indo.

    1. Caro Oliveira,

      Acredito que todos nós entendemos a gravidade do que aconteceu neste incidente. Porém, como foi dito pela jornalista, o mesmo Brasil Fede Covid publicou, no dia anterior, uma festa em Curitiba, com muito mais gente, a maioria sem máscara, e a repercussão foi muito menor.

      E fica claro no texto que o que é apresentado é uma comparação entre casos de desrespeito ao isolamento que tiveram visibilidades muito diferentes, sendo que a maior diferença entre eles é a questão do sexo. E, na sequência, a visão da jornalista sobre o que explicaria essa diferença na repercussão dos casos.

      Não vejo esta matéria como uma passada de pano, e sim uma importante ponderação sobre o quanto ainda nos escandalizamos com qualquer desvio de sexualidade não convencional, muito bem apontada no texto como conceitos morais cristalizados pelo cristianismo: “os corpos são sujos; o sexo é sujo; a não monogamia é suja”.

      No mais, pelo que ando lendo sobre o restaurante, este será investigado pelo MP e também pela Vigilância Sanitária. Portanto, acredito que o estabelecimento terá que arcar com as consequências do ocorrido.

      Agora, imagine a mesma situação de 10 pessoas dentro de um bar que está fechado, vendo a final da libertadores em um sábado de tarde. Só que, neste caso, todos estão de roupas. E sem máscaras, tomando cerveja e comento petiscos dos mesmos pratos, se abraçando nos momentos de gol, e berrando e xingando em outros momentos. Pense na nuvem de perdigotos que esta situação geraria. E me diga: teria gerado a mesma celeuma?

      1. Como o ditado diz, sex sells. É claro que um caso desse repercutiria mais. Também foi num bar relativamente conhecido. Parece até que as pessoas nasceram ontem e não percebem isso, se fazendo de assustadas. Além de ser diferente: festas clandestinas “normais” tem aos montes; esse é um caso diferente, naturalmente de destacaria ao ser reportado. Independentemente disso, ambos são graves.

        Como eu disse, ao menos na minha bolha, o que menos vi foi preocupação com essa parte moral. E é engraçado falar sobre “sujeira”: existem motivos sanitários para essas coisas não serem permitidas nesses ambientes.

        Sobre o seu exemplo no bar: não, não teria gerado a mesma celeuma pois, apesar de errado durante a pandemia, é uma atividade “normal” de ser realizada nesse ambiente.

  4. Uauuuu… se os kras souberam separar a suruba da higiene necessária- ainda mais em tempos de pandemia- para atender bem seus clientes qdo do restaurante aberto ao público em geral, penso q ta td susse…nossa o gado presente nos coments se doeu bem hein. Afff… excelente a matéria sra Jess💛👏🏼👏🏼

  5. Excelente matéria!
    Adorei!
    Triste é ver tanta gente reproduzindo tanta idiotice nos comentários!
    ISSO SIM ME DÁ NOJO!
    Gente babaca! 🤮
    😄😄😄

  6. Mudamos bastante desde abril né, quando defendia o fechamento compulsório de bares e afis, quando fazia matéria perseguindo bares, cafés e afins por abrir legalmente. Hipocrisia que fala.

  7. Texto ótimo. Pessoas da moral e bons costumes falando de higiene do restaurante, mas a gente sabe que no fundo, a indignação é por outro motivo né? Inconscientemente por não terem sido convidadas.

  8. Mudamos bastante desde abril né, quando defendia o fechamento compulsório de bares e afins, quando fazia matéria perseguindo bares, cafés e afins por abrir legalmente. Hipocrisia que fala.

    1. Oi, Allan. A denúncia que escrevi a respeito do bar que você comanda não foi em um espaço opinativo do jornal. Tratava-se de uma reportagem que mostrava por que vocês não estavam de acordo com as regras decretadas. Além disso, talvez não tenha apontado no texto, mas tenho provas de que vocês não serviam comida (a não ser amendoim). O agravante é que você, na época, era figura pública. De qualquer forma, o meu posicionamento pessoal segue o mesmo, caso seja do seu interesse: sou contra aglomerações na pandemia. Não importa se as atividades do estabelecimento sejam de cunho sexual ou não. Grata por acompanhar o meu trabalho.

  9. Não sei o que é pior, essa libertinagem toda falsamente nominada de cool, new, fine ou da hipocrisia que o valha ou a militância nojenta pró “tudo pode, nada pode”, exigindo respeito de quem desrespeita, querendo calar valores e princípios que valem de fato e não essas nojeiras animalescas que, caso tenham tanta necessidade descontrolada de executá-las, que as façam em meio aos animais ditos não racionais, já que seus instintos são mais fortes do que o bom senso e bons modos. E como os bons costumes inexistem, que juntem-se aos selvagens e lá permaneçam. Mas não, não farão isso porque tem necessidade constante de auto afirmação, de aparecer, de verem e serem vistos, a tal da maldita “lacração”. Haja saco para essa modinha no sense e super pretensiosa. O limite já foi extrapolado há muito tempo, uma boa parcela da humanidade não vale o que defeca, nem por via anal ou muito menos por via oral.

    1. “valores e princípios que valem de fato” – a oração que diz tudo sobre o seu comentário: se não for do teu jeito, é sujo e errado. Esse escândalo com a opinião alheia só mostra o quanto você precisa rever a sua.

  10. Excelente texto! Se fosse uma mesa de restaurante cheio de dinheiro, por exemplo ( o que seria biologicamente perigoso) a repercussão seria ínfima. Houve problemas ? Houve, mas o auê é por puro moralismo barato mesmo.
    Parece muito uma diretriz que rola na direita conservadora: o problema não é fazer , é ser pego.

  11. Corpos e sexo NÃO são sujos.
    Eu conheço o local e já fui várias vezes e vou continuar indo.
    Em todo o momento dentro de um restaurante as mesas são higienizadas e limpas, pelo menos a cada troca de clientes, ou vc já sentou numa mesa com migalhas e restos dos outros?
    Me diga, em quantas casa de amigos vc já foi e vc não tem a mínima ideia que ele podem ter transado na mesa de jantar?
    Keiji foi humano e inteligente em todas as notas que deu.
    O grande problema aqui, foi de quem divulgou e todos que compartilharam as fotos em sua redes. Expondo seus corpos e apontando o dedo. Estes sim faltaram com respeito aos envolvidos.

  12. Curitiba, o lugar onde as pessoas pensam que são desconstruídas porque fazem sexo. Fazer orgia não livra ninguém de ser antiaborto ou ser misógino. A respeito do nojo do corpo e do sexo , acho uma forçação. Não faço refeição em banheira de motel, tenho realmente nojo de esperma que não sei de onde vem e que não teve minha autorização pra chegar até mim , e acho um problema de vigilância sim as pessoas transarem em cima da mesa de um restaurante. Nem todo mundo é obrigado a gostar dos fluídos sexuais alheios e acho que algumas pessoas, por se acharem “cool” demais, não sabem respeitar a opinião dos outros.

  13. Parabéns pelo excelente texto, muito profundas e pertinentes as reflezões trazidas. E o mais interessante é que muitos e muitos comentários confirmam EXATAMENTE TUDO QUE FOI COLOCADO. A ideologia imposta é realmente fortíssima, o que foi facilmente comprovado pelos inúmeros comentários, enfim, as pessoas reproduzem com afinco essa maléfica imposição de que corpos e sexo são sujos. Uma pena que esses comentários também mostram o quão longe a sociedade está de se libertar disso 🙂

  14. Muita risada com os comentários.

    Mimimi e [email protected] perdides. Aglomerar não pode, mas para sexo talvez. Se for hétero teremos problemas, se for gay ai rola. Se for pró-aborto, tudo bem. Desde que limpe a mesa. Se for cool e tiver tatuagem, melhor ainda. Ou não.

    Que salada.

  15. Eu não teria coragem de tomar um copo de água na casa dessa “jornalista”
    Se levar a vigilância sanitária na casa dela, provavelmente seria interditada ad eternun.
    Ela precisa saber que estamos em pandemia por causa da falta de higiene de certos povos.

  16. Sou pastor evangélico e leitor do Plural.

    Acabei de ler a opinião e acho que vale deixar registrado que opinião e matéria são coisas diferentes.

    Sim, sou cristão, não, não sou branco, sim, sou hétero, etc…

    Creio que o cristianismo não está num momento da história onde considerado o queridinho de todxs. Mas é uma pena se considerar que certas questões existem única e exclusivamente para dominação romana sobre as massas.

    É um fato que a fé pode sim ser usada como meio de controle, mas não dá pra achar que toda manifestação de fé tenha por de trás esse objetivo.

    Graças à Deus, não são todos os cristãos que acham o sexo sujo e acredite, os que acham, não tiraram isso da bíblia.

    Aqui em casa a gente gosta de sexo e não nos limitamos à cama no quarto.

    Quero sugerir que a gente não feche conceitos, consolidando “pré” conceitos em relação a fé cristã, que não poucas vezes é bem diferente da religião cristã.

    A maioria dos crentes têm sido composta de gente babaca, infelizmente, mas nem todo crente é babaca assim como nem todo babaca é crente.

    Encerro dizendo que, apesar de enxergar preconceitos no texto, é um trabalho bem feito e de um raciocínio bem estruturado.

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