Se fosse pelo aplicativo, minha vó não teria sido vacinada | Jornal Plural
22 fev 2021 - 17h54

Se fosse pelo aplicativo, minha vó não teria sido vacinada

Mesmo com a faixa etária dela estando apta a tomar a primeira dose da Coronavac, sistema da prefeitura não informava agendamento

Se fosse depender da informação de agendamento ou não da vacina contra a Covid-19 no aplicativo “Saúde Já” da prefeitura de Curitiba, minha vó, de 91 anos, e a irmã dela, de 93, não teriam tomado a primeira dose. Mesmo com a faixa etária delas tendo sido chamada nos meios de comunicação, o sistema seguia dando como não agendada.

A pandemia se prolonga por quase um ano sem data confiável para acabar, ainda mais com a desídia do governo federal em providenciar imunizantes para a população, a única porta real de saída para este problema. Ela tem sido um enorme peso para as relações humanas. Sob comportamento suspeito do ponto de vista ético, no mínimo, o ocupante do cargo presidencial prefere propagandear e gastar com soluções milagrosas que não funcionam ou que são meros balões de ensaio, como se só ele soubesse de algo que todos já descartaram.

Eu não pude sequer comemorar o mais recente aniversário da minha vó com ela em novembro, como foi feito nos últimos anos. Os deslocamentos que faço cuidando de parte das compras da casa ou indo em consultas fazem com que qualquer visita seja um perigo para ela, que teve em março do ano passado uma pneumonia que não tinha há mais de uma década. Neste caso, a Covid foi descartada. E eu moro com minha mãe, que tem mais de 60 anos, e não temos carro, que evitaria contato com mais pessoas. Então é uma dura decisão que protege duas casas.

A sorte dela é que meu pai — único dos dois filhos dela ainda vivo — está morando no mesmo terreno desde o ano passado e assim resolveu centralizar todas essas questões de mobilidade saúde. Assim, ele a colocou como dependente dele no aplicativo Saúde Já da prefeitura de Curitiba. E foi orientado a aguardar o agendamento conferindo sempre no aplicativo. Ao mesmo tempo a prefeitura começou a escalonar as idades.

Pela idade dela, o dia correto seria 12 de fevereiro. No dia 15, segunda-feira, achando que tudo tinha ocorrido bem, liguei para ela perguntando como tinha sido. A surpresa foi que não tinha ido. A alegação é que o aplicativo deveria avisar e que estava aguardando. Não avisou.

Depois da ligação, entrei em contato com meu pai e ele mostrou que o aplicativo seguia dando informação de não existir informação de vacina. Aconselhei ir no posto próximo à casa deles mesmo sem esse agendamento que não veio, até porque a idade autorizaria ela a receber o imunizante conforme os meios de comunicação informavam.

Como ele possui carro, levou ela e a irmã dela (consequentemente tia dele, minha tia-avó), dois anos mais velha, sem filhos, que mora ali perto, no drive thru do Carmo (alguns quilômetros adiante, mas com a vantagem de não precisar esperar em uma fila em pé) no último dia 16. Isso foi quase às vésperas do estoque de vacinas acabar e deixar muitos idosos sem a dose, num oferecimento da incompetência da “gestão” Bolsonaro-Pazuello. Do mesmo modo, a gestão Greca-Huçulak mostrou uma falha logística gritante com a questão do aplicativo.

Elas tomaram as doses, mas quantos idosos que confiaram no aplicativo e ficaram sem a importante primeira vacina e não foram avisados a tempo? E quanto tempo que eles terão de esperar? Quantas pessoas mais ficaram esperando por um aviso que não veio e assim precisarão esperar até sabe-se lá quando neste caos que está sendo esta vacinação, uma vergonha para um país que já vacinou num passado não muito distante 80 milhões contra a gripe H1N1 em três meses?

E algo me preocupa: não deram data para a segunda dose (a princípio estão reservadas, torço, diante do caos cognitivo-administrativo completo que é o atual governo federal). Disseram para aguardar pelo aplicativo. Será que podemos confiar de novo? Será que o problema do aplicativo que não funciona em avisar as pessoas será resolvido? São perguntas que merecem respostas.

Nota oficial

Depois da publicação deste artigo, a Secretaria Municipal de Saúde enviou a seguinte nota:

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Curitiba esclarece que divulgou exaustivamente em suas redes sociais e pela imprensa que, no caso da vacinação contra a covid-19 para idosos com 90 anos e mais, não haveria agendamento pelo aplicativo Saúde Já.

Foram divulgados os locais de vacinação e feito um escalonamento por idade, entre os dias 10 e 12 de fevereiro.

A orientação era para que os familiares levassem seus idosos nos dias indicados.

A segunda dose vai ser aplicada no prazo previsto e da mesma forma, com datas definidas por faixa etária. As datas e locais de vacinação, novamente, serão divulgados no momento oportuno. A recomendação da SMS é para que os familiares fiquem atentos às orientações.

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2 comentários sobre “Se fosse pelo aplicativo, minha vó não teria sido vacinada

  1. Realmente é muito triste para dizer o menos sobre as gestões, federais, estaduais e municipais. Eu fiz o tal cadastro no saúde já, ma parece que é, saúde quando Deus quiser.

  2. E outra questão deste aplicativo tão divulgado e que pelo jeito, nada é registrado. Após a vacinação dos idosos, não consta como registro da dose que já tomou …

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