24 maio 2022 - 10h15

Ratinho Jr. faz Orquestra Sinfônica do Paraná tocar música sertaneja

Ao fazer a Orquestra Sinfônica do Paraná adotar um repertório sertanejo, governo dá mais um passo no desmonte da cultura no estado

A Orquestra Sinfônica do Paraná começou a fazer uma turnê pelo interior do estado em que, pela primeira vez em quatro décadas, dedica parte de seus concertos à música sertaneja. Serão cinco apresentações com o repertório popular. As duas primeiras já ocorreram em Guarapuava e Cascavel. As próximas duas serão em Maringá e Londrina. A turnê se encerra em Curitiba no dia 5 de junho.

Desde que Ratinho Jr. (PSD) chegou ao governo, circulava pelos bastidores do governo a ideia de fazer “concertos sertanejos”. Em parte para agradar o governador, um sujeito que parece se interessar unicamente por cultura popular. Em parte porque aparentemente seria uma boa jogada política: usa-se um ativo do estado para agradar a população, algo útil especialmente em ano eleitoral.

Enquanto Monica Rischbieter esteve à frente do Guaíra, conseguiu segurar a proposta; mas ela caiu, e logo em seguida a ideia andou. O regente Carlos Prazeres foi encarregado do programa, que inclui desde canções quase centenárias, como “Luar do Sertão”, até “Infiel”, de Marília Mendonça. Há também “No Rancho Fundo”, de Ary Barroso (popularizada por Chitãozinho e Xororó), e uma canção de Zezé di Camargo & Luciano.

A assessoria de comunicação do governo enviou um texto para os jornais comemorando o resultado das duas primeiras apresentações da Orquestra Sinfônica do Paraná. “Público vibra”, diz o texto, informando que a plateia cantou junto e foi inclusive regida por Carlos Prazeres.

Ataque à cultura

A nova atribuição dada à Orquestra Sinfônica do Paraná, de tocar música popular em praças públicas à beira do período eleitoral, não surpreende nem é um ato isolado. Desde o início do atual mandato, o governo Ratinho Jr. deixou claro o seu desprezo pela cultura em geral e pelas suas formas eruditas em particular.

Já na formação do governo, veio a extinção da Secretaria da Cultura, transformada num departamento da Comunicação. A ocupação dos cargos na minguada área da cultura deu sequência ao desmonte. Quem trabalha no ramo sabe que boa parte da administração cultural é prerrogativa de um militar com patente de capitão.

Tevê e rádio

Em seguida veio a morte do formato tradicional da tevê educativa. Deixada sem programação por meses, voltou como um canal dedicado ao turismo. Porque, afinal, já tinha ficado claro que a cultura não interessava. O veículo irmão, a rádio, foi sendo sucateado aos poucos, com a eliminação de todos os programas de fato educativos, as horas dedicadas à música clássica e ao jazz. No final, ainda veio a demissão em massa dos funcionários.

O próximo passo do governo foi intervir no principal centro cultural do estado, o Guaíra, removendo sua diretora. Monica Rischbieter, que por seus méritos sobreviveu a várias gestões, se opunha às práticas populistas da administração e se recusou a compactuar com o modo de distribuição das verbas da Lei Aldir Blanc.

Orquestra Sinfônica do Paraná

A orquestra é provavelmente o maior ativo cultural do estado. Foi fundada por José Richa em 1985. Assim como toda grande cidade do mundo, de Berlim a Nova York, de Viena a São Paulo, a capital paranaense passou a ter concertos regulares de música sinfônica. E isso com uma orquestra que, mesmo enfrentando a má vontade de vários governantes, está à beira de completar quatro décadas de bons serviços prestados.

Manter uma orquestra é caro, mas em todo o mundo civilizado se chegou à conclusão de que isso traz benefícios imensos. A população ganha acesso a três séculos de música orquestral, conhece um legado cultural importantíssimo e se vê conectada ao universo das artes. Criam-se empregos, reúnem-se plateias, a cidade sobe um degrau civilizatório.

Dinheiro

O ponto principal de haver orquestras estatais é que esse tipo de música não tem sustentação econômica. Se dependesse da iniciativa privada, provavelmente nenhuma cidade brasileira teria uma orquestra estável. É o contrário do que ocorre com a música popular. O Estado não precisa financiar uma banda de rock, de reggae ou de música sertaneja porque esses gêneros, sem incentivo, já lotam arenas, casas de show, pedreiras, mesmo com ingressos a R$ 300.

Fazer com que uma orquestra de dezenas de músicos se desloque pelo Paraná, com custos de transporte, hospedagem, alimentação, além do pagamento dos salários, é algo que só se justifica se for para cumprir o propósito para o qual ela foi criada. Para tocar música popular é uma insanidade indesculpável.

Condescendência

A Orquestra Sinfônica do Paraná não é o grupo certo para tocar Chitãozinho e Xororó. Não porque a música de duplas sertanejas seja ruim; simplesmente porque “Evidências” foi feita para ser cantada de uma certa maneira. Achar que “Romaria” precisa de uma sinfônica completa é não entender a beleza do que Renato Teixeira fez – além de parecer condescendente com a música dele, como se fosse preciso o “carimbo” erudito para validar essa arte.

A condescendência maior é com o público. É como se você tivesse desistido da capacidade das pessoas de acessar a música clássica. O governo do Paraná está dizendo para as pessoas que elas não têm condições de ouvir Mozart, não merecem escutar Beethoven, não estão à altura de Villa-Lobos. É como se os habitantes do Paraná estivessem fadados a nunca sentir certos prazeres – ao contrário da famosa rainha, tira-se o brioche e manda-se que o povo coma sempre o mesmo pão.

Zombaria

A ideia de usar uma orquestra de músicos eruditos é um desplante, uma zombaria com o contribuinte, que paga por lebre e leva gato no lugar. Os impostos que pagamos para gastos em cultura estão todos os dias sendo desviados pelo atual governo para fazer populismo na tevê estatal, na rádio, no Guaíra e, agora, na orquestra.

Em quatro anos, pouco sobrou de cultura financiada pelo governo do Paraná. O atual governador, até por saber manipular a população com esses gestos rasteiros, está prestes a conseguir mais um mandato. Se for o caso, é melhor dar adeus ao dinheiro que pagamos para manter a área cultural e reservar um dinheirinho a mais – depois de ver nosso dinheiro desviado, teremos de pagar para ouvir música em serviços de internet, para assistir a espetáculos em streaming e para substituir nossa rádio local por podcasts.

Porque uma coisa, nesses três anos e meio, já ficou clara. Ratinho Jr. e cultura não combinarão jamais.

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13 comentários sobre “Ratinho Jr. faz Orquestra Sinfônica do Paraná tocar música sertaneja

  1. Esperar o que desse Governador,basta ver sua formação filho de um pai que dá valores ao que há de pior no país. Com seus programas na televisão.Tenho dito que esse Governador não leu dez livros na sua existência e se você der um verbete a ele não consegue encontrar no dicionário.Nunca deve ter assistido um concerto ou ouvido uma música classica.Se formos a sua casa não encontraremos um CD de valor cultural a maioria de ser desse lixo conhecido como sertanojo.Triste Paraná

    1. A sua opinião deve ser respeitada até o momento em que há o pré-conceito com um dos estilos musicais mais culturais de nosso País. Acredito que existem formas mais inteligentes de expor a opinião, algo que o respeito, porém, não concordo até certo ponto.

  2. Bom texto, Rogerio. Devo dizer que não me importo de tocar DE VEZ EM QUANDO qualquer música transcrita para uma orquestra, afinal é uma forma de atrair um público novo para o grupo sinfônico. A questão é que a programação deste ano está fortemente voltada para este fim, em detrimento de concertos sinfônicos no sentido clássico do termo. Acho que deveríamos viajar sim por todo o estado mas para levar o repertório que não chega nestas cidades: Mozart, Villa Lobos, Brahms e Stravinsky. O público “iniciante” ainda não sabe o que está perdendo. É minha opinião, como músico da OSP. No mais, obrigado pela matéria.

  3. Triste, texto cheio de preconceitos deploráveis contra a cultura popular. Não apoio o governo do rato, mas consigo perceber apenas recalque erudito nesse artigo deplorável

  4. Vamos ver o repertório:

    Clássicos Sertanejos | Curitiba

    Domingo, 05/06, 11h00
    Museu Oscar Niemeyer (MON)
    Maestro convidado: Carlos Prazeres
    Programação: Dança Húngara no. 5 (Johannes Brahms)
    No Rancho Fundo (Chitãozinho & Xororó)
    Bicho do Paraná (João Lopes)
    É o amor (Zezé Di Camargo)
    Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense)
    Amanheceu Peguei a Viola (Renato Teixeira)
    Rio de Piracicaba (Lourival dos Santos)
    Romaria (Renato Teixeira)
    Infiel (Marília Mendonça)
    Estrelinha (Di Paullo e Paulino)
    Evidências (José Augusto e Paulo Sérgio Valle)
    Lágrimas (Maiara, Frederico Nunes e Gabriel Agra)

    Tenho ojeriza ao rato e não gosto de sertanejo, mas, tirando essa nulidade composta por Zezé, parece que quem for ao MON terá uns momentos bem aprazíveis, hein!

    Cultura caipira também é cultura, seu Galindo! E, ademais, não somos caipiras todos neste sul de mundo?

    Em tempo: como conseguir ingressos para esta aprsentação?

    1. Oi Ostili, a questão aqui não é o repertório em si, mas o investimento público na divulgação de um repertório ao qual o público em geral já tem fácil acesso. A Sinfônica é um dos poucos espaços nos qual se estuda e se promove o erudito. Além disso a própria Sinfônica tem um projeto de popularização da música de orquestra em que toca repertórios mais populares como forma de chegar em públicos que normalmente não a ouvem.
      Faz sentido você pegar toda a estrutura da Sinfônica e colocar para divulgar um repertório que já está em todo lugar?
      Sobre os ingressos, o evento será no Mon, mas o Museu ainda não divulgou informações sobre os ingressos. Em outros locais eles foram distribuídos gratuitamente duas horas antes do show.
      Acabaram de me mandar uma matéria bem bacana sobre esse assunto: aqui

  5. Iniciativa visionária. Já antevejo a Filarmônica de Vienna, em turnê, brindando o povo de Innsbruck com Alpenländische Volksmusik ou a Filarmônica de Berlim tocando Bolle reiste jüngst zu Pfingsten.

  6. Um governador que é um facínora, que não tem repertório, que está destruindo o estado do Paraná. O que mais poderíamos esperar dele?

  7. Oi @Rosiane, vejo aqui que você tem um ponto.
    O @Sebastião também deu uma visão bem interessante, por dentro da OSP.

    Noves fora – reconhecendo que talvez eu esteja comparando bananas com laranjas – eu apenas penso que eu não me lembro de ninguém reclamando por aqui quando a OSP tocou com o Blindagem (aliás, já existia o Plural na época?).

    Enfim, o PLURAL é LEGAL, o PLURAL é INCRÍVEL (duvido que vcs peguem a referência do show da luna) mas às vezes peca por um colunismo social babão do LULA (“banda curitibana toca no casamento do Lula”) ou por detestar algumas iniciativas só pelo fato de ter um dedão da ala bolsonazi no meio delas.

    1. Oi Daniel, a gente não tem a pretenção de escrever sobre tudo e tem plena consciência de que fazer jornalismo é, tb, errar às vezes (mas trabalhar para evitar e corrigir quando necessário). Acho que o debate aqui é o melhor que podemos estimular. E tb queremos entrar em debates com a disposição de mudar de ideia. Agora, esse material aqui é um fato: o governo ratinho interferiu e mudou o repertório da Sinfônica. Não foi uma iniciativa da sinfônica. É bom? Não é? Merece o debate.

      Dito isso, não acho que a matéria do casamento do Lula tenha sido colunismo social, mas enfim, posso estar errada. Sobre o blindagem, não sei quando foi isso. A gente só passou a ter um editor e uma equipe de cultura em janeiro de 2022. Isso custa bem caro e mesmo hj temos dificuldade para pagar todas as contas do mês.
      Obrigada pela audiência

  8. Eu entendo que às vezes cometemos erros por pura falta de referência.
    Poderia fazer muitos apontamentos sobre esse texto que parece não ter tido tempo de amadurecer e cheio de opiniões a priori.
    Mas vou só dar uns toques sobre música. Como citou Renato Teixeira, recomendo o disco do próprio compositor acompanhado pela orquestra do Mato Grosso, não acho que ele tenha se incomodado com as texturas diferentes das pensadas na viola.
    Também lembrar que Bach fazia exclusivamente música religiosa, Tchaikovsky fazia música para dançar e Strawinsky, assim como Bartók fazia música sertaneja da sua região.
    Talvez caiba um outro texto do autor refletindo sobre esses temas.
    Obrigado pelo espaço.

  9. Luiz Henrique, desculpe, mas o que você escreve não é exato.
    Bach escrevia música religiosa e também profana. E a música religiosa por ele escrita emprega as técnicas tradicionais da música clássica, conforme a estética do seu tempo, levadas ao paroxismo. Assim, suas obras são adequadas à sala de concerto.
    Tchaikovsky escreveu sinfonias, concertos, operas, além de ballets (para o palco, e não para a sala de bailes). A referência não serve.
    Stravinsky e Bartok jamais escreveram música folclórica. O emprego da inspiração na música folclórica não converte suas obras em “sertanejas”.
    De resto, não haveria qualquer problema em a orquestra oferecer ao povo do Paraná o repertório clássico a que seus músicos dedicam as vidas (inclusive, por que não, de compositores brasileiros, inclusive os que se inspiram nas fontes da música popular, como Villa), finalizando com um bis sertanejo. Seria uma espécie de balinha 7 Belo após o banquete. Várias orquestras fazem isso (inclusive Berlim e Viena).
    O problema está em empregar a orquestra sinfônica para um concerto só de música sertaneja (à exceção da curta peça de Brahms). Trata-se de desvio de finalidade.

  10. Há muito preconceito na matéria. Onde está escrito que só música clássica é cultura? Quantas culturas diferentes temos no nosso Paraná? Dezenas? Centenas? Qual tipo de música representa mais a nossa cultura caipira? As bodas de Fígaro ou Luar do Sertão? Qual fala mais de perto ao nosso povo? Quem decretou que orquestras só podem tocar as denominadas “músicas clássicas ou eruditas”? O que é um músico erudito além daquele que domina um instrumento e nele toca qualquer música? Música é música e todos tem seu gosto particular.

    Acho que passou batido na minha leitura o preço do ingresso e os locais das apresentações, o que poderia determinar a que público a orquestra estava levando “cultura” e mereceria um debate maior. É mais importante falar sobre o alto custo da cultura e como isso impede que a maioria das pessoas tenha acesso a ela.

    Viva a diversidade cultural brasileira.

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