Os museus no pós-pandemia: entre o “novo normal” e a ressignificação | Jornal Plural
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25 jun 2020 - 21h04

Os museus no pós-pandemia: entre o “novo normal” e a ressignificação

Atropelados pelo ritmo acelerado de contágio da Covid-19 e pelas ordens governamentais de fechamento imediato dos espaços, não houve tempo para os profissionais debaterem sobre as atribuições do museu nesta imprevisível realidade

Muito se tem escrito e debatido sobre quais seriam as ações (e as razões de ser) da instituição museal a partir do pós-pandemia. Artigos e mais artigos têm sido publicados nos conclamando a dar prognósticos sobre o futuro dos museus. Entretanto, a tentativa de transportar o conceito de “novo normal” para a ação museológica tem desviado o foco do que deveria ser a discussão principal neste período: repensar profundamente a função social do museu em tempos de quarentenas e de isolamentos sociais.

Atropelados pelo ritmo acelerado de contágio da Covid-19 e pelas ordens governamentais de fechamento imediato dos espaços, não houve tempo para os profissionais debaterem sobre as atribuições do museu nesta imprevisível realidade. Antes cautelosos em experimentar projetos em ambiente virtual, museus no mundo inteiro começaram uma corrida desenfreada para produzir e adaptar conteúdos digitais, principalmente com exposições, visitas e webinars. A alternativa virtual tem sido encarada como a principal estratégia dos museus que, segundo a professora, curadora e artista Giselle Beiguelman, foram “atropelados pela pandemia” e ainda “rastejam na internet”.

Em 2020, a disseminação de conteúdo virtual tornou-se crucial na ação museológica – mesmo a maioria estando na “idade da pedra na internet”. Contudo, a maior parte dessas ações resulta do contexto de emergência e, como tal, é ocasional e imediata. Temos visto apenas uma adequação, um amoldamento do modelo de museologia clássica para o ambiente online. Como destacado pela historiadora e museóloga portuguesa Maria Isabel Roque, estas propostas “são plasmadas da ação museológica convencional”. Em artigo publicado no início de abril, ela faz uma crítica contundente a essa disparada aos ambientes virtuais.

Aquilo a que assistimos no espaço virtual é a réplica do que acontece no espaço físico do museu. Em regra, houve apenas uma transposição de suportes, do analógico para o digital. Isto não significa que seja despiciendo o que vemos acontecer. A percepção de continuidade pode ter um efeito apaziguador face aos cenários de incerteza, angústia e medo provocados pela pandemia.

O “novo normal”, apresentado como a proposta de um novo padrão de convivência que possa garantir a nossa sobrevivência, é muito pouco para o futuro dos museus. No caso destas instituições, o que chamamos de “novo normal” não pode ser um conjunto de estratégias de segurança viral e distanciamento social unidas a uma programação online. É evidente que não podemos prever com exatidão as consequências da pandemia para os museus, que já sofrem com cortes de orçamento, falta de recursos para continuidade de projetos e dificuldades financeiras das mais diversas. Porém, chegou o momento em que o historiador norte-americano Lewis Mumford já nos alertava há décadas: “na reconstrução orgânica das cidades, veremos que o museu, não menos que a biblioteca, o hospital, a universidade, terá uma nova função na economia regional”. Assim como o mundo e os museus mudaram no pós-Segunda Guerra Mundial, ajudados por sua natureza dinâmica, é hora de pensarmos qual seria, portanto, a nova função destas instituições.

A profunda crise potencializada pela pandemia precisa servir como impulso para nos guiar a uma nova museologia, na qual o sentido de prestação de serviço à comunidade seja mais importante do que a guarda de acervo e o despejo de informações enciclopédicas. Estamos falando da construção de ambientes mais participativos, em que a memória social esteja ligada a formação de hubs de educação e a uma compreensão maior do nosso papel transformador. Nesse despretensioso “novo normal” que tem sido difundido pela mídia, os museus que se satisfizerem com soluções circunstanciais, como visitas virtuais (pseudo) interativas e descrições de conteúdo com hiperlinks, perderão a oportunidade de embarcar numa reflexão muito mais profunda sobre o que será a “normalidade” no museu.

Esse debate refuta os modelos museais focados no conhecimento linear e na obsessão pelo número de visitantes, desprezando verbos como “compartilhar”, “colaborar” e “participar”.  Como destacou o presidente do Conselho Internacional de Museus da Europa, Luís Raposo, “importa questionar se verdadeiramente quereríamos manter a longo prazo essa dita ‘normalidade’”, mesmo com todas as ferramentas necessárias para evoluirmos, que envolvem o contexto de crise, de adversidades e até de pânico.

Uma consequência positiva deste período atribulado pode (e deve) ser a reflexão forçada sobre como seria a futura “normalidade” e como os museus podem se ressignificar a partir de um contexto caótico. É uma oportunidade de reduzirmos a aura mítica dos museus e aterrissarmos numa realidade e numa temporalidade que possam abraçar a sociedade, criando novas e contemporâneas formas de engajamento do público a partir de narrativas plurais, inclusivas e, principalmente, educativas. O museu do pós-pandemia continuará existindo – e deverá se reinventar não apenas quanto às formas de suporte financeiro e aos protocolos de responsabilidade quanto ao vírus. Em qualquer formato ou plataforma, o protagonismo precisa estar não no acervo, mas no público. 

Para ir além

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