O fim do jornalismo profissional e o início da era dos digital influencers | Plural
3 dez 2019 - 15h39

O fim do jornalismo profissional e o início da era dos digital influencers

Fomos todos usados, transformados em meros relações públicas de quem se dispôs a pagar nossos salários

Exatamente hoje, dia 3 de dezembro de 2019, faz vinte anos da minha formatura em Jornalismo. Aquele dia especial que todo acadêmico tanto espera, depois de quatro anos e meio, dedicando longas horas de estudo em uma universidade. Erguemos nossas mãos direitas diante de uma cerimônia pomposa e fizemos um juramento de trabalhar com ética, responsabilidade, mergulhar fundo numa história para descobrir e revelar os fatos à população. Afinal, comunicar é uma arte e também um dom, um compromisso social muito maior, de fomentar o debate e informar o que deve ser de conhecimento público, doa a quem doer.

Fomos agentes transformadores na sociedade ao longo das últimas décadas. Mudamos os rumos da história, muitas vezes, em função do que foi publicado e do que foi deixado de ser divulgado também. Muitos acontecimentos só puderam chegar a todos os cantos do mundo, graças ao trabalho árduo e comprometido destes profissionais da comunicação e desse desejo insaciável de revelar o que os olhos do mundo não conseguiriam ver sozinhos.

Entretanto, aquele glamour todo, tão sonhado e idealizado para a vida pós acadêmica, foi pura ilusão. No fundo, todos sabíamos que não seria fácil enfrentar os donos de jornais e emissoras, que nos jogariam para escanteio caso não falássemos o que eles queriam que fosse dito, em função da garantia do pagamento do patrocínio daquela grande empresa apoiadora do jornal.

Muitos foram ludibriados por forças políticas de esquerda ou direita, se deixaram levar por discursos fáceis e apaixonados, que em nada contribuíram com o fortalecimento e a importância da nossa área de atuação. De um jeito ou de outro, fomos todos usados, transformados em meros relações públicas de quem quer que um dia se dispôs a pagar nossos salários. Fortaleceram-se as agências de notícias e pagava-se mais a quem se dispusesse escrever o que o cliente queria. Informação tendenciosa mascarada de jornalismo, republicada gratuitamente em milhões de veículos.

Ao longo dos anos, a obsessão por obter cada vez mais alcance, com informação genuína, criativa e ágil foram atributos exigidos de todo profissional. A internet então surgiu e se tornou uma aliada, revolucionou o mundo da comunicação, valorizou muitos profissionais, mas houve também quem não se adequasse às novas ferramentas. Muitos não se atualizaram, se perderam no tempo e foram, naturalmente, abandonando a profissão, como em qualquer outra. Normal! Há de se adaptar. Atualização é fundamental para se manter vivo em qualquer área de atuação. O problema é que isso trouxe um novo concorrente; o blogueiro qualquer, querendo uma boquinha dessa grana da publicidade que paga a informação.

O jornal deixou de ser impresso, passou a ser digital e foi engolido por esses blogs de diferentes vertentes independentes, onde qualquer cidadão passou a atuar como “jornalista de seus próprios interesses”. Entretanto, a essência do “quem paga mais leva” continua reinando e está longe de acabar. As redes sociais disseminam informações sem qualquer compromisso com a realidade e trouxeram um novo fetiche; o impulsionamento pago, baseado em algoritmos comandados sabe-se lá por quem.

No fim, sinto como se fôssemos apenas peões de um grande jogo, onde quem comanda tudo é o dono do tabuleiro. Escrevemos o que mandam, mas usam nosso nome, nossas habilidades e nosso prestígio como fachada. Somos personagens de um sistema onde “manda quem pode, obedece quem tem juízo”… e quem tem boletos para pagar no fim do mês. As consequências disso são uma chuva de desinformação e matérias pagas irresponsáveis, mesmo travestidas de reportagens sérias. Jornalistas ditos “bons” são idolatrados, premiados, mas no fundo são como atores de uma série do Netflix, seguindo um roteiro pronto, pensado e com desfecho certo.

É decepcionante quando nos deparamos com redações sem jornalistas dispostos (ou autorizados) a investigar uma informação a fundo, de pesquisar o que está sendo dito. Republicam releases cegamente, desses que vêm prontos de agências e de assessorias, como se fossem matérias produzidas com idoneidade e comprometimento. Quem paga a conta? O cidadão, lá no final, que consome essa informação tendenciosa de um jeito que parece a verdade mais absoluta. Sim, porque o leitor também tem preguiça de buscar mais de uma fonte, de checar as informações que recebe, quando muito lê a matéria em si, pois a maioria fica só naquela frase escandalosa que apareceu no grupo de WhatsApp. (Aliás, sinta-se um privilegiado, pois muitos não chegaram até essa linha desse artigo, porque odeiam textão)!

Viramos réles criadores de manchetes fantásticas e sensacionalistas para garantir likes, acessos e curtidas num site controlado por quem tem interesse puramente financeiro e político, e não mais com a realidade dos fatos. Somos como avatares de um grande sistema de poder. Muitos que falavam em imprensa livre, há bem poucos anos, tiveram apoio de governantes que, ao invés de ajudar, derrubaram a obrigatoriedade do nosso diploma. Agora, a retirada do Registro Profissional. Estão apenas jogando a pá de cal em cima da nossa profissão, que não significa mais nada, num mundo de poucos caracteres e de desinformação!

É meus amigos, aquele jornalismo idealizado por todos nós não existe e/ou nem nunca existiu. Um dia nos fizeram acreditar que éramos o quarto poder, quando na verdade, talvez fossemos até mais do que isso. Mas não fomos maduros o suficiente para lidar com a força dos demais, que nos usaram para alcançar o que quiseram e nos destruir, pouco a pouco.

Jornalismo burro, irresponsável, inconsequente, fake news! Sim, é tudo o que eles querem de nós! Mas somos todos responsáveis pelos rumos que nossa profissão tomou. Viramos replicadores de informações pagas e agora precisamos nos reinventar, juntando o que restou da nossa sanidade mental para reconstruir um novo destino. O velho jornalismo acabou! As universidades estão formando as últimas turmas de sonhadores. Viramos todos digitais influencers, apenas isso. Comentaristas de podcasts. Quem tiver mais seguidores tem mais voz, não importa a veracidade do que se diga, tampouco se cursou qualquer graduação.

Foi bom enquanto o sonho durou!

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