Fechei meu bar para salvar vidas | Jornal Plural
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10 abr 2020 - 19h24

Fechei meu bar para salvar vidas

Sou empresária, dona de um bar. E vou manter minhas portas fechadas

Eu sou uma pequena empresária sócia de um bar. Nesse momento, nós, empresários, estamos nos deparando com a seguinte decisão: manter nossas portas abertas e arcar com a responsabilidade das vidas que estamos arriscando ou fechar o atendimento presencial e preservar o maior número de vidas possíveis. É sobre isso que estamos decidindo nesse momento. Vidas. Seja nós do ramo de bares e restaurantes ou qualquer outro ramo não-essencial de comércio.

Estamos decidindo sobre vidas. Esse é o foco.

Nesse momento talvez a última opinião que você deveria estar ouvindo é de uma empresária de um bar e restaurante. Faço isso porque a situação demanda. Desde o início da epidemia nós estamos perdidos sobre qual é a decisão correta a ser tomada. Nas primeiras semanas havia um pronunciamento diferente da Prefeitura de Curitiba que conflitava com o posicionamento do Governo do Paraná e não era consonante com o que o Governo Federal dizia juntamente com o Ministério da Saúde. Até as datas das quarentenas não batiam e até agora, ainda não declararam de forma transparente que é necessário que bares e restaurantes fechem e continuem apenas com deliverys e retiradas nos balcões.

Recentemente, os sindicatos patronais da área de bares e restaurantes (Sindiabrabar e Abrasel-PR) saíram em uma matéria do Bom Gourmet da Gazeta do Povo pedindo para que o governo diga às pessoas que é seguro frequentar nossos estabelecimentos presencialmente se tomarmos precauções paliativas como distanciamento de mesas, cuidado redobrado com higiene.

Infelizmente isso não é verdade e não é prudente.

Se as gotículas de um espirro conseguem atingir 8 metros de distância, como vou ter certeza de que 1,5 metro de distância entre as mesas dos clientes é seguro? Há tanto que ainda não sabemos sobre esse vírus. Eu tenho uma equipe pequena, mas e restaurantes grandes, como vão garantir que a equipe não irá circular em transportes coletivos se expondo a todo tipo de risco? Não será, nós, empresários, que devemos discutir o que é melhor para saúde das pessoas e sim as autoridades da área da saúde, pesquisadores e comunidade médica.

Na matéria do Bom Gourmet da Gazeta do Povo, o presidente da Sindiabrabar diz “Nós podemos trabalhar, mas queremos que o Governo e a Prefeitura falem isso para a população e que não fiquem com a polícia mandando os clientes fugirem dos estabelecimentos”. Posso falar pelo meu estabelecimento: Não, nós não queremos isso do Governo e da Prefeitura. Queremos que eles falem para que as pessoas fiquem em casa. Queremos que eles tomem as medidas para prevenção da epidemia com clareza e agilidade. Quanto antes fecharmos todos, menos tempo ficaremos fechados.

Essa mesma matéria do Bom Gourmet da Gazeta do Povo foi alterada, só pelas minhas contas, umas três vezes. Primeiro o título era “Bares e Restaurantes que continuam abertos seguem cuidados recomendados contra o coronavírus”. No conteúdo, não tinha qualquer opinião que não fosse dos sindicatos patronais.

Posteriormente a matéria foi alterada para “Entidades querem apoio para que clientes voltem a frequentar bares e restaurantes de Curitiba”. Mas tinha outro problema, as duas entidades citadas na matéria pediam coisas diferentes, uma demandava o fechamento, a Abrasel-PR e outra a reabertura, o SindiAbrabar. A Abrasel se posicionou dizendo que não era exatamente a reabertura que estavam pedindo, mostraram um oficio enviado às autoridades que demandava o fechamento, mas apesar disso, a matéria soava como se os sindicatos concordassem e a opinião do SindiAbrabar prevalecesse. Novamente ela foi alterada para indicar a discordância entre eles.

Esse vaivém não aconteceu somente com esses sindicatos. A ACP (Associação Comercial do Paraná) se posicionou no dia 9 de março pedindo a reabertura do comércio a partir do dia 13 com horário diferenciado para “evitar acúmulo de pessoas nos horários de picos”. Já hoje, dia 10, voltaram atrás dizendo que o Ministério Público do Paraná recomendou que os comércios permanecessem fechados por isso iriam endossar o pedido para que continuasse o fechamento. Se isentando de posicionar firmemente e jogando toda responsabilidade da decisão para o Ministério Público.

Essa dissonância de opiniões e a presença nos veículos, quase exclusiva, de grandes empresários que demandam a reabertura das atividades econômicas faz parecer que há um consenso de que essa é a opinião de todo o comércio, quando não é.

Não nos cabe demandar que o governo pare de fiscalizar lugares e diga para que as pessoas que elas não devem ficar em casa. Elas devem ficar em casa. Essas são as recomendações da Organização Mundial da Saúde, a OMS. Expressamente e exatamente essas: o isolamento social é a melhor alternativa contra o coronavírus.

A mesma matéria afirma que Nelson Goulart Junior, da Abrasel-PR, concorda com a opinião de Fábio Aguayo. Segundo o texto ele diz que “isso provoca uma confusão nos clientes que acabam sem ter certeza se podem ou não ir aos estabelecimentos.”. Em seguimento posterior afirma que o que não pode é ficar uma “coisa imprecisa”.  A única certeza que devemos ter é que os clientes não devem ir aos estabelecimentos e essa falta de firmeza das entidades patronais certamente não nos ajuda.

Impreciso e negligente é não afirmar nesse momento que bares e restaurantes precisam fechar o quanto antes para que possamos controlar da melhor maneira a epidemia. A prioridade é manter a saúde e as vidas das pessoas, qualquer morte que pudermos evitar significa muito mais que nossas empresas. Crises, percalços econômicos, nisso tudo damos um jeito. Não podemos dar um jeito na morte daqueles que frequentarem, de maneira inconsequente, bares e restaurantes que estão atendendo presencialmente.

Sabemos que precisamos tomar medidas para preservar a vida das pessoas. Muitos bares e restaurantes da cidade tiveram ações espontâneas de fechar o atendimento presencial antes mesmo de qualquer decreto oficial que pedisse isso cito aqui Ginger Bar, Janela Bar, Officina Restô Bar, Alba Wine Bar, Lagundri, Pizaria da Mathilda, Whatafuck, Oide, Mornings, Supernova, Mãe, Rause Café, Polpettas, o próprio Cosmos G/astrobar, meu estabelecimento e muitos outros. Pelas contas da própria Abrasel são mais de 500 estabelecimentos fechados. Temos que ser responsáveis com nossa comunidade e com a vida das pessoas. Não é pequeno o desafio que estamos enfrentando.

Apesar dos posicionamentos contrários ao isolamento ou que pedem o isolamento vertical (apenas de pessoas em grupos de risco) soarem como maioria, gostaria de dizer que não é um consenso entre empresários. Pelo menos aqui no nicho de pequenos bares e restaurantes. Nós entendemos que o isolamento social é uma medida recomendada e que não há um modo seguro para que as pessoas frequentem nossos bares e restaurantes.

Não é fácil tomar essa decisão de fechar os atendimentos. Um mês ruim pode fechar a maioria dos restaurantes, somos uma economia que depende muito do fluxo diário. Enfrentar as dificuldades e incertezas financeiras de fechar as portas é aterrorizante, mas ela é ainda mais difícil sem qualquer amparo das instituições que nos representam em qualquer esfera. Sem isso ficamos totalmente à deriva. Não sabemos por quanto tempo precisamos ficar fechados, não podemos planejar qualquer futuro, simplesmente ficamos no escuro tentando enfrentar uma tempestade muito maior que nossas pequenas empresas.

Precisamos de posicionamentos claros que demandem o fechamento dos atendimentos presenciais e socorro financeiro com redução e adiamento de impostos, linhas de crédito, negociação de contas de água e de luz, ajuda IMPRESCINDÍVEL com o pagamento de salários para que não haja demissões.

A realidade de quem está no nosso lugar é ouvir notícias diárias sobre a liberação de linhas de crédito e possibilidades de socorro para o pagamento de salários, mas quando procuramos as ajudas anunciadas nos deparamos com burocracias enormes e prazos de liberação de 1, 2 meses. Nós precisamos de ajuda financeira para ontem. Se a minha empresa não sobreviver a essa crise, o que eu temo é por quem trabalha na minha equipe. Precisamos de menos gente dizendo que o governo precisa mandar as pessoas saírem de casa e mais pessoas que entendam que precisamos de ajuda financeira imediata para manter nossos empregos.

Neste momento, mais do que seguir autoridades, cada um de nós empresários e membros da comunidade civil devemos nos perguntar: Eu estou fazendo tudo que eu posso para conter a epidemia? Você que tem uma micro, pequena ou média empresa, está passando um inferno agora. Deve estar muitas noites sem dormir. Mas se você está tomando as medidas certas, pelo menos durma em paz. Você está fazendo o que o mundo precisa nesse momento.

Inferno muito maior que nossos boletos e dificuldades financeiras, que espero que sejam passageiras e todos possamos nos recuperar, é acompanhar a morte de uma pessoa em uma UTI sem sequer poder visitar um ente querido e velar as pessoas que amamos em caixões lacrados e velórios vazios.

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