7 dez 2021 - 9h00

Entre as dores de amor e a mudança comportamental: Marília Mendonça e a música sertaneja

A revolução que teoricamente se alardeia não se dá sem essa mudança comportamental, igualmente transformadora e necessária se começar no plano individual e daí se alastrar

É no mínimo estranho reclamar do vizinho que ouve música sertaneja e não conhecer nenhuma canção de cor. Na minha cabeça, ao contrário, elas grudam que nem chiclete.

Já fui de Uber da rodoviária de Ponta Grossa até o campus de Uvaranas ouvindo e morrendo de dó do moço que estava apaixonado, mas morava em uma humilde residência, a cama estava quebrada e ele, pobrezinho, não tinha cobertor… ♫♩♫♩♪ Já pensou, no frio que vem lá sul, não ter cobertor? É de cortar o coração. Não é deboche, juro! Fico realmente tocada, sentida… rs.

Outra vez fiz a segunda voz com o motorista cantando “Evidências”. Enquanto imaginava o dueto, me intrigava, me deixava confusa o paradoxo da canção. Diz que não ama, mas ama, por isso se afasta, nega as aparências, disfarça as evidências, pede, implora ao objeto de desejo dizer que é verdade, que tem saudade, que confesse não tirá-lo da cabeça, só assim ele terá finalmente coragem de se declarar. Esquisito depender da opinião do outro, no caso a mulher amada, para formar opinião “sobre tudo, sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou”, disse o saudoso Raul que tinha, digamos, essa “pegada sertaneja”.

Está bem, eu sei, o eu lírico deve ser do tipo “um louco alucinado, meio inconsequente, um caso complicado de se entender”. Mas faça-me o favor, vira o disco, é época de Spotify, é preciso subverter práticas, modos, gostos e desejos. A revolução que teoricamente se alardeia não se dá sem essa mudança comportamental, igualmente transformadora e necessária se começar no plano individual e daí se alastrar. E foi o que Marília Mendonça fez. Na sua, na companhia das amigas, sem muito alarde, sem carta de intenção, sem plano de metas, a sua música era o seu manifesto. (Espero, desejo muito que ela tenha tido consciência do impacto, do abalo sísmico que provocou em nós, sociedade brasileira).

Esse perfil do “cara complicado”, porém “apaixonado alma transparente”, que “mexe com a minha cabeça e me deixa assim, que faz eu pensar em você e esquecer de mim, que faz eu esquecer que a vida é feita para viver”, que prendia a mulher numa teia emocional não só difícil de entender, também de se desvencilhar, já teve lugar no podium das relações amorosas. Mas hoje, e somos gratas também a Marília Mendonça e sua turma por isso, já não causa o mesmo impacto nos corações e mentes dessa geração que está com “zero paciência”, ainda mais depois da função de acelerar o áudio. “Eu não sei o que lá, te amo, não sei o que lá, saudade, não sei o que lá, vem me buscar aqui. Acelerei o áudio e foi só isso que eu entendi”. OK, concordo, depois ela foi buscá-lo, tem certas coisas que demoram mais para mudar, afinal “o amor ainda está aqui, vá com Deus”. Mas nos fez também rir, “é um podcast”, também pensar… e muito. É o tempo da desforra, pois “se o destino tá traçado, pra vivermos lado a lado, vá com Deus”. Salve Roberta Miranda que abriu caminhos!

Roberta Miranda Foto: divulgação.

“Aí o analista amigo meu disse que desse jeito eu não vou ser feliz direito” ♪♩♫♪, isso se continuarmos negando o amor cantado na música sertaneja que, avalia a complexidade da coisa, tem “um vídeo-tape que dentro de mim retrata todo o meu inconsciente de maneira natural”. Sério, isso? Até Freud, cultura de massa na parada, nas paradas de sucesso. Adorno não teve tempo de ouvir nosso repertório sertanejo, tivesse tinha pirado o “cabeção”.

Deve ser por essas e por outras que muitas vezes eu não entendo nada. Se o destino está traçado por que mandar a pessoa embora e ainda por cima com Deus? E pior: por que mandá-la para o inferno com seu amor? “Com seu amor” é o sentimento, não a pessoa, fosse a pessoa até entendia, com o amor “vale tudo”, até ir para o inferno. Só Freud explica… Qual a dificuldade de chegar na pessoa e abrir o jogo: – Quero falar com você, “o negócio é o seguinte, o preço da égua é 120”. Desculpe-me pela piada sem graça, foi mais forte que eu. Essa eu aprendi essa com meu tio, fã do Milionário e do José Rico, responsável por esse repertório chiclete que não saiu mais da minha cabeça desde que comecei a escrever esse texto acessando essa memória musical de um lugar que nem eu mesma conhecia, deve ser o tal de “inconsciente” retratado de “maneira natural”. Presto, portanto, tributo ao tio Genésio, mais conhecido, não por acaso, como Sabiá, e também à tia Graça! Tia Graça e eu fizemos o teste na Internet de “Evidências” e não erramos um verso sequer. “Evidências” está entranhada em nós, brasileiros. Voto em “Evidências” para hino nacional.

Mas brincadeiras à parte, qual a dificuldade da pessoa dizer tudo que sente, de se expressar, de expressar amor de alguma forma? Tantos já fizeram isso: “Moreninha linda do meu bem querer, é triste a saudade longe de você”. “Uma deusa, uma louca, uma feiticeira ela é demais”. “Nossa, delícia, assim você me mata”… ♫♪♩♫♩♩♪

Tudo bem se for por carta, nem todo mundo tem o dom da oralidade, na hora se confunde, esquece, fica nervoso, “faz tipo, faz coisas que não é”… ♫♩♪ Mas, PELOAMORDEDEUS, PELOAMORDEDEUS, não vai meter os pés pelas mãos e dizer à pessoa amada que ela “desapareça, que nunca mais te procure, que pra sempre te esqueça”, fazer a egípcia, a pedra cinza ou provocar ciúme. Se fizer isso, esteja certo, está decretada a “mortalha do amor, adeus!”

Em se tratando de amor, amado, a crueldade pode parecer o melhor remédio quando se deseja ferir alguém (por vingança ou por necessidade), mas é também a pior escolha, habilidade de muito cara desajeitado emocionalmente. Assim fica até fácil “matar o amor e não o ciúme” e transformar tudo em “outra mágoa, um gatilho, outro trauma”. Sai dessa, “enquanto cê tá indo, eu tô voltando” e “todo esse caminho”, bem, “eu sei de cor”.

Milionário e José Rico. Foto: divulgação.

E a carência? É quase um padrão nesse perfil “bruto, rústico e sistemático”. O pobre dorme na praça (bebaço, imagino) e tem que explicar pro seu Guarda que não é vagabundo, não é delinquente, é só um cara carente. Claro que depois dessa, o guarda “passou pano” pra ele, que homem não se identifica, não sente pena de um sujeito “que fala com as estrelas e com a lua”, “doente de amor que procura remédio na vida noturna”? Que nunca fez “loucura por uma mulher”?

Este verso não confunda, é de outro compositor. Mas está valendo, Lupicínio é mestre nessa matéria e o verso “você sabe o que é ter um amor, meu senhor, e por ele quase morrer” é universal, rompeu as fronteiras musicais, temporais e invadiu a bossa nova, a MPB, o sertanejo e, é certo, já esteve na cabeça de muita gente que um dia sofreu por amor. Esse “desejo de morte ou de dor” do qual o compositor fala tão profundamente na canção é tão vivo, é tão real que é possível senti-lo na pele, só de ouvi-lo dá uma fisgada no peito. “É um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”, descreve Camões, e dói tão ardentemente que o apaixonado, e todo apaixonado é um poeta, “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”, define Pessoa.

Mas se você é do tipo “nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração” e nunca experimentou o desatino de uma paixão, então, meu caro, lamento, você realmente nunca vai entender a música sertaneja nem essa pessoa passional que não tem nada a perder ou se tem é mais forte que ela, está perdida de amor procurando “remédio na vida noturna”, na “marvada pinga”… ♪♩♫♪

“Feito eu perdida em pensamentos”, fico imaginando se a mulher que levou o rapaz a dormir na praça pensando nela é a mesma da Boate Azul, que ficava lá em Apucarana, é sério, veja o vídeo, e Bruno & Marrone me levam a crer que já fizeram a mesma relação. Vai saber… De repente, ele foi procurar “remédio na vida noturna”, viu a Dama da Noite e, pronto, foi amor à primeira vista. Mas ela não estava disponível para o amor – “onde se ganha o pão”, já disseram, “não se come a carne” – e ele, desolado, contrariado, teve de afogar as mágoas num copo de cerveja… ou seria de cachaça? “A marvada pinga é que me atrapaia aqui mesmo eu bebo aqui mesmo eu caio”… ♫♩♪ Lá pelas tantas, lembrou, esqueceu, já não sei, “eu bebi demais”… ♩♪♫ “Aí eu bebo e fico tonto, lembro de nada nem do meu nome, esqueço tudo, quase tudo, só não esqueço”… ♫♪♩♪ Antes a gente pudesse esquecer de tudo, não é mesmo? A cachaça é boa, mas (e infelizmente) não opera milagres. “Isto é lá com Santo Antonio”, com “Jesus Cristo, Jesus Cristo” ou, quem sabe, se pedir à Nossa Senhora da Aparecida “de romaria e prece paz nos desaventos”, que “ilumine a mina escura e funda o trem da minha vida”. Tenho, tenha fé, “vai passar”…

Com a boate já encerrando o expediente, o eu lírico sai se agarrando pelas paredes, se escorando no “melhor amigo”, ao mesmo tempo cantarolando: “sair de que jeito, se nem sei o rumo para onde vou, muito vagamente me lembro que estou em uma boate aqui na zona sul. Eu bebi demais e não consigo me lembrar sequer qual era o nome daquela mulher”… ♪♩♪ Não lembrou o nome da Dama da Noite nem soube explicar ao seu Guarda como acabou dormindo no banco da praça, talvez porque é mesmo que mora numa “humilde residência” e “a cama está quebrada”, vai saber… ♫♪♩♪

Maiara, Marília Mendonça e Maraisa. Foto: divulgação.

A canção sertaneja, letra e música, se você ouvir bem, estabelece diálogos entre passado, presente e futuro. Você pode não perceber imediatamente se não está habituado a ouvi-la, não faz parte das suas referências sonoras nem viveu no interior do país, não foi criado em Londrina onde a gente escuta por osmose, nem precisa querer, gostar, nada disso, não é uma opção, uma escolha, eu gosto, não gosto. Está ali, pulsando… a gente só escuta, cresce, e lembra, “com açúcar, com afeto”, como faço aqui, agora. Tem muita citação de clássicos, ressignificação de temas que atravessam as canções, não só sertanejas nem só as nacionais. As trocas culturais são intensas e reside aí uma das explicações para a ampla aceitação do estilo musical, ponto de convergência de múltiplas influências, de norte a sul.

As mulheres da música sertaneja, as compositoras, as intérpretes e acrescento também o público feminino, pois essa demanda, certeza, não parte unicamente de cima para baixo, é transversal, tiveram o mérito de renovar a narrativa. Não seria exagero compará-las, em termos de impacto, ao que fez a bossa nova em relação ao samba-canção e ao bolero nos anos 1950. Tudo antes era muito sofrido, nossa, dava até medo se apaixonar, dava… Elizete Cardoso sabe bem do que estou falando. Em prantos, quis morrer, perdeu a paz, tudo era só saudade, esqueceu-se de quem era, pior, esqueceu-se de quem queria ser, anulou-se, amar parecia ser seu fim… Desesperador. Dava, dá vontade de pegar na mão dessa mulher e confortá-la com um carinhoso abraço e dizer a ela com voz macia que “vai passar”, há de passar… Mas “a dor ensina a crer e a perdoar” e “só quem morre de amor pede perdão!” Perdoou-se, reergueu-se, “a hora não é de sofrer”, encontrou e fez “o amor valer”. Afastou para longe “a melancolia, a solidão”, estas que “já não cabiam mais no seu violão!” E pediu, implorou: “Tenha pena das penas que eu penei!”, PELOAMORDEDEUS.

Marília Mendonça e As Patroas trouxeram essa leveza, essa ironia, esse humor, essa autoestima. Marília Mendonça ficou conhecida como a “rainha da sofrência”, mas na verdade é muito mais que isso, é protagonista de uma revolução narrativa, musical, comportamental na música sertaneja, esse gênero com maior inserção social nacional. Isso é muita coisa, mas muita coisa mesmo, nem que nos esforcemos para ignorá-la, esse fenômeno não tem como ser menosprezado.

Então, “Luiz, [meu caro,] respeita o Januário”. Você pode não gostar, não ouvir o gênero, é direito seu, estamos de acordo nisso. Mas lembre-se que você não é régua para o bom gosto e (não) curtir, (não) conhecer não te torna especial, “alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado”. Mas seria louvável da sua parte que mesmo não gostando nem ouvindo tentasse pelo menos entender esse fenômeno chamado Marília, que é muito mais que a musa inspiradora de Tomás Antônio de Gonzaga, patrimônio de um tal Dirceu, é referência para uma parcela significativa dos brasileiros, mas (e principalmente) é porta-voz dos desejos, frustrações e mágoas de muitas brasileiras. Em um país que há muito tempo se expressa cultural, social e politicamente por meio da canção, que até recentemente era “o Brasil que canta e é feliz”, isso tem impacto profundo. Salve João Gilberto, salve Ary Barroso, que tanto alimentaram, nos alimentaram com esperança, fé no Brasil, nesse povo “que não tem medo de fumaça, que não se entrega não”. ♪♩♫♪

Por isso, façamos jus a um dos conselhos mais caros de Marília, essa visionária: “Eu quero que você, mulher, repense muito bem se você precisa desse retrocesso na sua vida, se você merece esse retrocesso na sua vida”. “Contra qualquer tipo de preconceito, a favor do amor: #elenão”.

O Plural é um jornal independente mantido pela contribuição de nossos assinantes. Ajude a manter nosso jornalismo de qualidade. Assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. E passa a fazer parte da comunidade mais bacana de Curitiba.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias