Doei sangue pela primeira vez e me senti mais cidadão | Jornal Plural
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1 jul 2020 - 21h31

Doei sangue pela primeira vez e me senti mais cidadão

Todos perdemos quando direitos são negados, a sociedade fica mais desigual, seja pela ótica que você quiser olhar: econômica, social, de gênero, de orientação sexual

Neste mês de junho de 2020, eu doei sangue pela primeira vez. Esse fato inédito para mim, porém, infelizmente é inédito também para a sociedade brasileira. Até então, homens gays, como eu, eram impedidos de doar sangue pelo Estado, por simples preconceito.

Esse acontecimento foi fruto da decisão do Supremo Tribunal Federal, que entendeu como inconstitucional a portaria do Ministério da Saúde que impedia a doação por “homens que fazem sexo com outros homens”. Essa portaria criava um círculo vicioso que tornava inelegível homens gays casados, como eu: apesar de ter só um parceiro, no caso, meu marido, com quem divido minha vida há dez anos, eu nunca conseguia doar sangue, por dar um “sim” como resposta à pergunta “você se relacionou com outro homem nos últimos 12 meses” durante a triagem pré-doação.

Uma parte considerável da sociedade que entende que gays querem privilégios nunca vão entender o gosto de se sentir “mais cidadão”. Foi assim que me senti, a cada apertada na bolinha que auxiliava para tirar o sangue das minhas veias. Para salvar vidas. Inclusive a de pessoas que mantiveram por tanto tempo essa restrição preconceituosa.

Durante a minha faculdade, não consegui doar sangue, quando uma professora pediu para que os estudantes fossem a um banco de sangue para apoiar um familiar dela. Fui recusado não pelo peso que tinha, não por ter alguma doença ou por ter optado ter feito uma tatuagem. Fui recusado por ser quem eu sou e por amar quem eu amo.

Acompanhei as idas e vindas das discussões no Executivo, no Legislativo e no Judiciário sobre o tema, ansioso para doar sangue pela primeira vez – detalhe: eu morro de medo de agulha. Mas o meu receio de agulhas é infinitamente menor do que meu medo de não ter direitos. Por isso, após a decisão, corri doar sangue, para me apropriar desse direito que me foi negado e que me fez menos cidadão. Só quem já teve um direito negado por ser quem se é sabe a urgência de acessá-lo.

Há ainda uma parcela considerável que vocifera contra o Supremo, querendo “fechar o STF” ou “prender os ministros”. O STF e seus ministros, com todas suas qualidades e seus defeitos, têm sido um pilar que garante acesso à cidadania a quem não tem.

Digo por mim. Quando casei com meu marido, em 2010, fui com uma advogada em um cartório específico, porque não eram todos os cartórios que “aceitavam” realizar uniões entre pessoas do mesmo sexo – e eu só tive acesso, à época, a uma união civil estável, já que o casamento só foi possível de ser realizado mais tarde por decisão do STF. Quando fui adotar meu filho, foi mais fácil, mas não porque esse direito sempre existiu: foi porque antes casais homoafetivos travaram batalhas judiciais para compor as suas famílias. Hoje, com a adoção do meu filho, a minha está completa.

Todos perdemos quando direitos são negados, a sociedade fica mais desigual, seja pela ótica que você quiser olhar: econômica, social, de gênero, de orientação sexual. Uma sociedade mais justa e igualitária se faz com acesso amplo às mesmas condições e igualdade de direitos e deveres – veja, a população LGBT só quer ter os mesmos direitos que qualquer cidadão brasileiro, tendo em vista que os deveres nos são os mesmos.

E essa sociedade mais justa só se faz com democracia e com seu sistema de pesos e contrapesos, para corrigir as distorções. À população LGBT eu peço: nos apropriemos desses direitos há tanto negados. À sociedade brasileira, eu suplico: defendamos a democracia com forças, pois só com ela pessoas como eu podemos existir da forma que somos e amamos.

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