Derrubar estátuas também é histórico | Jornal Plural
6 jul 2020 - 21h42

Derrubar estátuas também é histórico

Deixar intacto um monumento em homenagem a um escravagista ou a um ditador não é “preservar a história”, mas corroborar com a ideia de que este é um personagem exemplar

Muito se têm falado sobre os recentes protestos nos quais estátuas foram “atacadas”, parcialmente ou totalmente destruídas. Diversos textos tem sido publicados a respeito – particularmente, recomendo este, da professora Giselle Beiguelmann, de modo que tenho pouco a acrescentar. Mas há um ponto que me incomoda em algumas argumentações.

Para chegar lá, é preciso lembrar o papel dos monumentos. Há quem diga que derrubar estátuas não adianta, pois é necessário compreender, refletir e elaborar o passado, não apagá-lo. O raciocínio está corretíssimo, mas ignora o significado de um monumento. Uma estátua não é uma mera reprodução em pedra de uma pessoa. Ela dialoga com o meio a sua volta. Consequentemente uma estátua no centro de uma grande praça é diferente da mesma estátua no canto da praça, ou em uma praça da periferia da cidade; e mais diferente ainda em um museu. Este é um espaço onde se constroem narrativas criticas sobre o passado (ao menos é o que esperamos), de modo que expor em um museu a imagem de um escravagista não é homenageá-lo. Pelo contrário, abre a possibilidade de questionar não só a sua figura histórica, mas, talvez ainda mais importante, problematizar as políticas de memória por trás da produção da estátua e sua exposição anterior.

Já erigir um monumento em uma praça é inevitavelmente uma homenagem – mesmo que haja uma placa que descreva os aspectos “duvidosos” da pessoa, permanece uma homenagem, não só porque poucos lerão a descrição, mas porque na nossa cultura histórica um monumento em uma praça está associado à homenagem a alguém cujos feitos são louváveis, e não a sua problematização. Consequentemente, deixar intacta uma estátua de um escravagista, de um ditador etc., não é “preservar a história”, mas corroborar com a ideia de que este é um personagem exemplar. Isso significa que algum tipo de intervenção se faz necessária, embora seja legítimo e válido discutir qual. A estátua (bem como sua remoção ou depredação) diz pouco sobre o personagem histórico, mas muito sobre a sociedade que o homenageia ou repudia.

O meu incômodo é que no discurso da necessidade de “preservar a história” e mesmo em algumas defesas dos protestos, pouco se menciona o caráter histórico do ato em si da derrubada. Uma vez realizada a remoção ou recaracterização da estátua em um protesto, este ato se tornou também histórico. Pretender restaurá-la para evitar um “apagamento da história” apaga justamente o fato, igualmente histórico (mas provavelmente muito mais digno de ser rememorado) do protesto. Recolocar a cabeça “decapitada” de Cristóvão Colombo, é apagar o ato de sua decapitação simbólica.

Em 1968 (e novamente em 2014) um busto do ex-reitor da UFPR Flávio Suplicy de Lacerda foi retirado e arrastado pela Rua XV de Novembro por estudantes em protesto contra a colaboração do reitor com a ditadura. A escolha por recolocar o busto tal como era antes significa optar por “preservar” sua memória “positiva”, e ao mesmo tempo apagar e relegar ao esquecimento (ou a uma discreta placa) o protesto dos estudantes. Construir memórias implica, necessariamente, uma articulação entre lembrar e esquecer. Não há memória total, e nem é desejável que tudo seja lembrado. Manter a estátua, tanto quanto removê-la, significa a escolha por lembrar um conjunto de eventos e perspectivas e apagar outros. A questão é o que desejamos inserir na narrativa memorial.

O que fazer então com as estátuas de personagens cujas trajetórias são, aos olhos da memória que queremos construir para nossa sociedade, reprováveis? Cada caso é um caso. Em alguns a inserção em um museu talvez seja o melhor caminho. Há casos em que é possível ressignificar, como no caso do “Stroessner esmagado” no Paraguai, no qual um monumento em homenagem ao ditador foi transformado em outro, em que a mesma estátua é esmagada. Finalmente, há situações em que a simples remoção e destruição é o mais adequado.

Mais importante! No caso de monumentos em que houve intervenção por manifestações populares de contestação a uma memória gloriosa de personagens nada gloriosos, é fundamental não apagar a memória justamente desse ato. E ao fazê-lo é que precisamente se resguarda da negação do passado trágico e da carga de responsabilidade social advinda (uma preocupação compreensível quando se opta pela mera remoção das referências a esses períodos, que pode levar a dissociar completamente o presente do passado vergonhoso).

No caso de Bristol, por que não erigir, no lugar da estátua do traficante de escravos, um monumento em homenagem aos manifestantes que a arrancaram? De modo que não se esqueça que por muitos anos um traficante de escravos foi homenageado, mas a estátua foi heroicamente derrubada. Por que não deixar a estátua de Colombo decapitada mesmo, de forma a mostrar o percurso da construção dessas memórias? Derrubar estátuas é tão histórico quanto construí-las. Como queremos lembrar esses eventos?

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias