Brasil abandonou uma Fazenda Rio Grande inteira à morte | Jornal Plural
8 ago 2020 - 22h26

Brasil abandonou uma Fazenda Rio Grande inteira à morte

Cem mil pessoas pagaram o preço da negligência, da incompetência, do mau-caratismo

O Brasil chegou neste fim de semana à triste marca de cem mil mortos por Covid-19. É como se o país tivesse apagado do mapa uma Fazenda Rio Grande, oitava maior cidade da Região Metropolitana de Curitiba. Ou o Sítio Cercado, segundo maior bairro da capital paranaense.

Mais do que essa marca simbólica, este fim de semana é mais um marco na história de negligência, má fé e incompetência que assola o país. Prefeitos e governadores vendem um isolamento mais ou menos, na tentativa de não incomodar setores da economia, mas sem, de fato, conseguir conter o avanço da contaminação.

O Sistema Único de Saúde, já sofrendo com falta de investimentos, foi forçado a investir pesado na abertura de caríssimos leitos de UTIs, única medida possível, capaz apenas de minimizar o impacto do aumento de casos da doença.

Pior ainda, municípios liderados por prefeitos irresponsáveis gastam o limitado recurso público em remédios que, de efetivo, só tem o marketing do mal no WhatsApp e redes sociais. São mercadores da ignorância e do desespero da população.

Compra-se equipamento médico e medicamentos sem licitação, a preços exorbitantes porque manter a população em casa, acompanhada de medidas de redução do impacto financeiro da quarentena, seria ruim demais para a economia.

Mas restaurantes, shoppings e lojas de rua precisam se manter abertos. As academias prometem que meia dúzia de divisórias de policarbonato, álcool gel e toalhinhas garantam o que só as portas fechadas certamente fariam: evitar mais contágio.

Quem tentou ficar isolado se enterrou em dívidas esperando uma ação efetiva do governo, que nunca vai se concretizar.

Cem mil pessoas pagaram o preço da negligência, da incompetência, do mau-caratismo. Quantas mais precisam morrer para a dimensão da canalhice que toma o Brasil ficar evidente? A verdade é que o sofrimento de um só já é o suficiente para separar os homens dos monstros.

Agora, enquanto ainda rezamos pelos doentes e fechamos caixões, querem conversar sobre quando abrir as escolas. Querem fingir que há como voltarmos ao “normal”.

O governador do Paraná anuncia que tem dinheiro para uma vacina, que não existe (existe em promessa, em esforço científico e em ação real de outros governantes, não dele). Sem querer, ele inventa o placebo populista, talvez o único legado real que irá deixar no estado.

Nosso prefeito inaugura leitos de UTI como quem descobriu a cura do câncer. Quantos pacientes graves de outras doenças vão sofrer e, eventualmente, morrer, porque ele não quis incomodar quem não quer fechar as portas?

A grande ação da prefeitura é essa: dizer que não temos hospitais de lona, que temos leitos, temos respiradores, está tudo bem. É só o Sítio Cercado que é o problema, e ele está bem longe.

Mas a verdade é que leito de UTI é um jeito caro de adiar a morte de alguns. Não temos ainda tratamento efetivo contra a doença e as vacinas vão chegar, mas num futuro incerto.

Cabe a nós começar a pensar como vamos viver e nos proteger (da doença, da crise econômica, da ignorância e da má-fé) como comunidade, a despeito de nossos governantes. Temos que retomar a atividade econômica, repensar a educação sem a ação efetiva do Estado.

Eu tenho algumas ideias. E você? Vamos conversar. A comunidade precisa se mobilizar antes que uma nova cidade seja extinta. Porque, apesar do Greca, o Sítio Cercado é logo ali.

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