A extrema-direita mostra a cara nas eleições da UFPR | Jornal Plural
Clube Kotter
21 ago 2020 - 19h52

A extrema-direita mostra a cara nas eleições da UFPR

O bolsonarismo saiu das redes sociais, e quer se instalar no gabinete da reitoria da UFPR. Mas para não perder de todo o hábito, é…

O bolsonarismo saiu das redes sociais, e quer se instalar no gabinete da reitoria da UFPR. Mas para não perder de todo o hábito, é nelas que a campanha dos professores Horácio Tertuliano e Ana Paula Cherobim, pulsa. Esqueçam, portanto, as propostas vagas, que parecem escritas pelo mesmo estagiário que formulou o programa de governo de Jair Bolsonaro, em 2018. É no mundo bizarro dos grupos de WhatsApp, bem ao gosto dos bolsonaristas, que a Chapa 1 mostre em que ela é, realmente, forte.

Nos últimos dias circulou, por esses grupos, um documento intitulado “Não ao autoritarismo na universidade! Por uma UFPR Livre, Inovadora, Plural e realmente democrática”. Trata-se, na aparência, de um manifesto de apoio à candidatura da Chapa 1 assinado por “Estudantes e Professores de Direita”. Digo “na aparência”, porque provavelmente o documento foi discutido (passe o exagero) e escrito dentro do próprio grupo, e não por “apoiadores” anônimos.

Pouco importa: na linguagem rasteira do bolsonarismo mais medíocre, o texto desfila mentiras, ataca os adversários e seus eleitores e, o mais importante, desqualifica a Universidade que os professores pretendem administrar. De acordo com os candidatos da Chapa 1, ou seus supostos apoiadores, a UFPR está submetida a uma “escravidão ideológica”, seus discentes são “lobotomizados”, “vítimas de lavagem cerebral, de manipulação, de uma doutrinação rasteira que turva a percepção do mundo” com as “lentes viciadas da ideologia”.

Segundo o documento, que ignora solenemente que a UFPR já formou gerações de profissionais atuando nas mais diferentes áreas, da Universidade não saem senão “militantes”, uma “massa de manobra adestrada e servil”. Os responsáveis por esse estado de coisas? Uma “oligarquia”, em aliança com “grupos identitários facciosos e partidos de extrema-esquerda que visam o poder. Tudo isso escrito com o uso exagerado dos negritos, a reforçar o tom alarmista.

O manifesto encerra conclamando por uma “UFPR de EXCELÊNCIA, sem amarras político-partidárias, sem agendas ideológicas paralelas, sem cumplicidade com os extremismos antidemocráticos!”. Uma reivindicação feita, justamente, por uma chapa identificada com o extremismo de direita, autoritário; com um governo mancomunado com o crime organizado, as milícias cariocas; e com uma clara, transparente, “agenda ideológica paralela”.

Não por acaso nem coincidência, os exemplos de que o texto lança mão como evidências dessa “lobotomização”, são manifestações de grupos pertencentes às chamadas “minorias” – negros, feministas, LGBTs. Tudo muito coerente com uma chapa que apoia um presidente homofóbico, e racista, e um governo que está a condenar à morte comunidades indígenas e quilombolas. A Universidade é pública, desde que o público seja, preferencialmente, branco, hetero e abastado.

Nada também a estranhar em uma chapa cujos candidatos acreditam que cotistas comprometem a qualidade da Universidade, apesar das muitas pesquisas que mostram o contrário; integração universitária é aumentar a oferta de horários nas linhas intercampi; e para quem políticas de permanência se resumem a ter bancos nos campi onde estudantes possam se reunir pra tocar violão.  

Reitor não, interventor

Uma breve explicação, para os leitores menos familiarizados com o funcionamento das universidades e a eleição de seus reitores. Pela lei, aquilo que chamamos de eleição é, na verdade, uma consulta pública feita à comunidade acadêmica. O resultado dessa consulta, a chamada “lista tríplice”, é enviada ao presidente da República, responsável pela nomeação do novo reitor.

Tradicionalmente, desde que a consulta foi instituída, em 1996, todos os presidentes nomearam os nomes mais votados pela comunidade acadêmica. Trata-se não apenas de respeitar a autonomia universitária – autonomia, aliás, que o manifesto também critica, reverberando os ataques do ex-ministro Abraham Weintraub –, mas as regras mais elementares da democracia. Na UFPR, em todas as eleições, as chapas concorrentes sempre assumiram o compromisso de retirarem suas candidaturas caso derrotadas.

Além de atacar e desqualificar a Universidade e seu atual reitor, o professor Ricardo Marcelo (o texto chega a acusá-lo de querer impor um “pensamento único”, de “perfil positivista-marxista e impositivamente ateu”, e desconhecer “teorias científicas sofisticadas, como a do Design Inteligente”, superior às “ilógicas teses ateístas”, referindo-se, suponho, ao evolucionismo), o manifesto a favor de uma “UFPR forte e imparcial” pretende ser, também, uma defesa ideológica de um projeto pessoal e político de poder a qualquer custo.

Em um tour de force argumentativo, o texto pretende emprestar legitimidade à decisão dos candidatos bolsonaristas, de não renunciarem a nomeação, mesmo que derrotados nas urnas. A alegação, falaciosa, é que a decisão de aceitarem a nomeação sem terem obtido o voto da maioria, é que ela é democrática porque respeita a Constituição, e porque Bolsonaro, eleito democraticamente, tem apoio popular.

Dito de outra forma, para a entidade anônima e coletivista (“Professores e estudantes de direita”) que assina o manifesto, a democracia confere poderes absolutos ao presidente, que age, porque encarna, uma “vontade soberana”, a do “povo” ou da “pátria”. Uma concepção de democracia coerente com o populismo autoritário de Bolsonaro. Mas que contraria aquilo que é o cerne das democracias modernas e liberais, que são representativas e republicanas, entre outras coisas, para limitar aspirações e desejos de poder absoluto.

O aparelhamento das universidades, uma realidade em curso, com Bolsonaro preterindo nomes escolhidos pela comunidade acadêmica e nomeando reitores alinhados ideologicamente com o governo, é parte fundamental de projetos autoritários como os de Viktor Orbán, na Hungria, e Nicolás Maduro, na Venezuela. Nos dois países, seus líderes fecham centros de pesquisa, perseguem e expulsam professores e estudantes, desqualificam evidências, estudos acadêmicos e áreas inteiras do saber.

Além, claro, de nomear reitores identificados com o regime.

O que tampouco é novidade. Se na Alemanha dos anos de 1930, mesmo alguém com a estatura intelectual de um Heidegger, se deixou seduzir pelo poder e aceitou ser reitor nomeado pelo Estado nazista, seria de uma ingenuidade imperdoável esperar algo diferente de gente minúscula, além de rastejar, subserviente, e servir a um governo de milicianos. A questão agora, o que importa, é nossa atitude frente à baixeza moral do bolsonarismo que toma de assalto a Universidade.

Seremos e faremos uma oposição como ela deve ser, ou seguiremos preocupados e empenhados exclusivamente em nos adaptarmos às exigências dos órgãos de avaliação, como se tudo estivesse dentro da normalidade, sob o pretexto de que manter a normalidade é uma forma de resistência?

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6 comentários sobre “A extrema-direita mostra a cara nas eleições da UFPR

  1. O reitor Ricardo está subestimando a concorrência. O material produzido pelos bolsonaristas foi melhor formulado. Espero que os eleitores tenham consciência de classe. E no final eles ainda podem não retirar a chapa da lista tríplice e serem escolhidos pelo presidente quase como interventores. Se ganharem, a comunidade acadêmica ficará desacreditada.

  2. Parei de ler quando colocam Orbán e Maduro no mesmo espectro. Não dá. Pecam por praticar o que estão criticando. Por favor. Num contexto desses que a Venezuela enfrenta é inaceitável esse “desargumento” de direita!
    Que pena, vinha vindo tão bem.

  3. Odeio ser pessimista mas o Presidente Jair Miliciano Bolsonaro já deu mostras q não se importa com a democracia interna das universidades e seus nomeados só querem saber do cargo para ajudar os parcas da direita…e tudo se caminha para um interventor na UFPR….estou torcendo para errad

  4. É lamentável tanta ignorância e dogmatismo barato dentro da nossa UFPR. Tratar estes imbecis bolsonaristas com respeito esta ficando quase impossível!

  5. Señor Clóvis Gruner.
    En Venezuela los rectores de las universidades son electos por votación directa y secreta de los profesores, representantes de los estudiantes y representantes de los egresados. No los designa el presidente de la república.
    Su afirmación de que “seus líderes fecham centros de pesquisa, perseguem e expulsam professores e estudantes, desqualificam evidências, estudos acadêmicos e áreas inteiras do saber.” no se diferencia de las campañas de calumnias y desinformación que la derecha realiza contra Venezuela desde hace más de 20 años.
    Pretender refutar a la derecha con inexactitudes y falsedades conduce a una segura derrota.
    PS. He sido docente universitario y pro rector de la sede Ciudad del Este de la Universidad Católica en Paraguay.

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