25 nov 2021 - 16h25

Igreja centenária tombada sofre com goteiras e fachada apodrecendo no interior do PR

Finalizada em 1901, a Igreja de São Miguel Arcanjo, em Mallet, é o primeiro templo construído pelos imigrantes ucranianos

Aos 120 anos, a Igreja de São Miguel Arcanjo, no município de Mallet, no sul do Paraná, mostra todos os sinais do tempo e sofre com problemas de deterioramento, como goteiras no interior do templo e parte da fachada, feita em tábuas de madeira de araucária, apodrecendo.

Além da importância histórica e arquitetônica – a construção em estilo bizantino foi tombada pelo governo estadual em 1982 –, a igreja tem também um grande significado para a comunidade ucraniana no Brasil, que conta com cerca de 1 milhão de descendentes.

Finalizado em 1901 após uma obra que durou quatro anos, o edifício é o primeiro templo construído pelos imigrantes ucranianos que começaram a se instalar no Brasil a partir de 1891. Tamanha é a relevância, que uma réplica da igreja foi inaugurada em 1995 no Parque Tingui, em Curitiba, para hospedar o memorial ucraniano.

Tábuas que revestem a fachada estão apodrecendo. Fotos: Reni Kovaltchuk.

“A parte externa me deixa apreensivo porque foi feito um restauro em 2011 e hoje, dez anos depois, a madeira já está apodrecendo. E quando chove forte tem goteira caindo da cúpula e um pouco nas laterais”, diz Reni Kovaltchuk, presidente da comissão de gestão da igreja.

O clima da região e a localização do edifício não ajudam. A construção fica no topo da Serra do Tigre, numa área rural a mais de 900 metros de altitude e a cerca de 15 quilômetros do centro da pequena cidade. O inverno é rigoroso e úmido, com garoa e neblina frequentes.

Enquanto a estrutura continua se deteriorando, poder público e diocese – órgãos envolvidos na preservação do edifício – passam a responsabilidade um para o outro.

O coordenador do Patrimônio Cultural da Secretaria da Comunicação Social e da Cultura do Paraná, Vinício Bruni, disse desconhecer a situação e prometeu notificar a diocese, entidade à qual pertence o edifício.

“O que ocorre muito nos edifícios é o chamado vício de construção invisível. A igreja pode ter tido pequenas goteiras invisíveis e hoje está em estado avançado. Cupim é outro problema invisível que aparece só quando causa um problema maior”, explica Bruni.

Intempéries estão danificando o revestimento do edifício. Fotos: Reni Kovaltchuk.

A Metropolia Católica Ucraniana São João Batista, diocese à qual pertence a igreja de Mallet, informou em nota que tem conhecimento da situação e está fazendo tudo que está ao alcance “para preservar o patrimônio religioso, histórico, artístico e cultural”. 

Por ser um bem tombado, acrescenta a entidade, “não é tão simples assim fazer uma restauração localizada ou pontual”. “Qualquer intervenção requer um trabalho profissional qualificado e aprovado pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, autarquia do governo federal]. Temos a certeza de que os responsáveis do Iphan também estão cientes da situação e tenham planos concretos de recuperação dos danos do edifício”, completa a diocese.

A secretária municipal de Cultura e Turismo de Mallet, Maria Margarete Grden Szinvelski, afirmou que está ciente da situação e que foi orientada pela secretaria estadual de Comunicação Social e Cultura a enviar um relatório sobre o estado da construção ao órgão.

“Fizemos uma visita no local com engenheiro e arquiteta do município e elaboramos um descritivo de toda a situação em que se encontra a igreja e o enviamos por e-mail. Estou no aguardo de retorno”, diz a secretária, que não informou o conteúdo do relatório nem a data de envio do documento.

Pintura azul aplicada em 2011 está descascando. Foto: Andrea Torrente/Plural.

Além do tombamento estadual, o Iphan também já instruiu o processo para o tombamento federal, o que daria uma proteção adicional ao edifício. Mas o processo ainda não foi concluído e não há prazo para isso.

“A falta de manutenção periódica, por parte dos dirigentes da igreja e da própria Eparquia Diocesana, acaba levando a essa situação. É uma pena que após um enorme investimento ali colocado quando da restauração, por meio da lei Rouanet, chegue em tão pouco tempo a essa situação. De fato, não poderia e não deveria ocorrer”, lamenta Rosina Parchen, superintendente do Iphan no Paraná. 

Igreja foi restaurada em 2011

Interior da igreja com pinturas em estilo bizantino está sendo ameaçado por goteiras. Fotos: Andrea Torrente/Plural.

Entre 2009 e 2011, a igreja de São Miguel Arcanjo passou pelo maior processo de restauro de sua história. A restauração foi proposta pelo Instituto ArquiBrasil e contou com recursos do BNDES e da Caixa Econômica Federal, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura. O custo foi de cerca de R$ 1,1 milhão.

A obra devolveu à igreja seu telhado original, em tábuas lascadas. As pinturas internas foram elaboradas a partir de estudos sobre a arquitetura e iconografia de igrejas ucranianas, retomando importantes símbolos dos ritos bizantinos.

“Para os ucranianos, as igrejas são muito importantes. Em especial, a igreja de São Miguel Arcanjo representa a materialização do movimento migratório. Tecnologicamente é impressionante por ter sido toda construída em madeira e o local onde está implantada é uma área rural próxima de onde chegaram os primeiros imigrantes. É um edifício tão importante que o prefeito de Curitiba, Rafael Greca, em seu primeiro mandato, mandou construir uma réplica para homenagear a comunidade”, explica Fábio Domingos, professor de arquitetura da universidade FAE e autor do livro Igrejas Ucranianas.

Segundo o especialista, a obra de restauração realizada dez anos atrás foi muito bem executada e, atualmente, o edifício precisaria apenas de intervenções de manutenção para evitar que as infiltrações de água danifiquem ainda mais a estrutura.

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Um comentário sobre “Igreja centenária tombada sofre com goteiras e fachada apodrecendo no interior do PR

  1. A construção original durou aproximados 100 anos, até a deterioração, bastante acentuada.
    O que não dá para entender e avaliar, os motivos que levaram a nova deterioração, em apenas 10 anos.

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